Apesar de vazamentos, EUA devem continuar sendo aliados do Paquistão

Papel do país é crucial na guerra do Afeganistão, justamente por causa de laços com o Taleban

Alex Rodriguez, Los Angeles Times,

27 de julho de 2010 | 22h24

 

ISLAMABAD- Apesar da grande quantidade de detalhes em documentos americanos que vazaram sobre a suspeita colaboração de agentes da inteligência paquistanesa com a insurgência Taleban, especialistas paquistaneses afirmam que os Estados Unidos e o Afeganistão não tem melhor escolha do que continuar a trabalhar com um parceiro de quem desconfiam.

 

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lista  Leia a íntegra no Wikileaks  (Em inglês)

 

O Paquistão nega veementemente apoiar a insurgência afegã após relatórios vazados pela organização Wikileaks detalharem vários encontros e contatos entre agentes de inteligência e militantes afegãos. Entre eles, há relatos de agentes paquistaneses que coordenaram ataques contra as forças ocidentais no Afeganistão e forneceram aos insurgentes motocicletas para ataques suicidas.

 

O governo Obama aumentou o número de soldados no país asiático e lançou uma estratégia de contrainsurgência em um esforço para diminuir a capacidade de luta do Taleban, reforçar o poder do governo afegão e incentivar rebeldes a mudar de lado.

 

Mas o governo americano também pretende começar a retirar suas tropas do país no ano que vem, objetivo que levou oficiais em Cabul e Islamabad a concluir que Washington não está no conflito a longo prazo - e que eles precisam trabalhar juntos após a saída dos americanos.

 

Líderes afegãos ficaram satisfeitos com a possibilidade de o Paquistão abandonar negociações de paz com a rede extremista Haqqani, um grupo militante que usa a região tribal paquistanesa do Waziristão do Norte como uma base para lançar ataques contra as forças americanas, afegãs e da OTAN no Afeganistão.

 

"Só o Paquistão pode aproximar o presidente afegão Hamid Karzai e o Taleban, e trabalhar em uma solução aceitável para os dois lados", disse o brigadeiro reformado Javed Hussain, um analista de segurança paquistanês e ex-comandante das forças especiais do Paquistão.

 

Longe de serem novidade, os documentos vazados reforçam preocupações antigas em Washington e Cabul de que a Diretoria de Serviços de Inteligência paquistanesa (ISI, na sigla em inglês) coopera com os talebans. No entanto, as informações detalham a extensão desta colaboração.

 

No centro de vários dos relatórios está Hamid Gul, um general paquistanês aposentado e chefe do ISI entre 1987 e 1989. Conhecido como "Pai do Taleban", Gul foi fundamental nos esforços paquistaneses para recrutar mujahedins (guerreiros sagrados) para lutar contra tropas soviéticas nos anos 80. Líderes ocidentais suspeitam há muito tempo dos laços de Gul com líderes do Taleban.

 

Os relatórios sugerem que a relação de Gul com o Taleban incluíram assistência e a militantes que planejavam ataques contra forças de segurança afegãs e ocidentais. Um relatório de dezembro de 2006 descreveu um encontro entre líderes da milícia em Nowshera, no Paquistão, no qual Gul afirmou que enviou três militantes para Cabul para realizarem ataques a bomba contra tropas afegãs e da OTAN.

 

Um documento de março de 2008 afirma que o ISI ordenou Sirajuddin Haqqani - que lidera o grupo Haqqani com seu pai, Jalaluddin Haqqani - a matar engenheiros indianos que trabalhavam na construção de estradas na província afegã de Nimruz. Para os assassinatos, os pagamentos variavam entre US$ 15 e 30 mil, de acordo com o relatório.

 

Um outro relatório de abril de 2007 diz que o ISI enviou 1.000 motocicletas para a rede Haqqani usar em ataques a bomba suicidas nas províncias afegãs de Khost e Lowgar.

 

Se verdadeiras, as relações entre a inteligência paquistanesa e o Taleban não devem ser vistas como surpresa, já que oficiais paquistaneses acreditam que o Afeganistão é crucial para a estabilidade de seu país, de acordo com uma análise divulgada nesta terça pelo Stratfor, um think-tank americano de política externa.

 

No curto prazo, especialistas acreditam que os documentos vazados podem agravar tensões entre os EUA e o Paquistão sobre os contatos deste país com o Taleban. Mas a longo prazo, segundo eles, cada lado precisa manter em mente questões estratégicas maiores.

 

Para os especialistas, o Paquistão sempre terá influência sobre Cabul para minimizar o papel de seu rival do leste, a Índia, que já está investindo pesado no Afeganistão e pode aumentar seu interesse no país assim que os EUA retirarem suas tropas.

 

Os militantes Taleban são pashtuns, um grupo étnico que estende-se do instável cinturão tribal ocidental paquistanês até o Afeganistão. A relação do Paquistão com os pashtuns afeta o Afeganistão tanto como sua própria segurança interna em áreas tribais.

 

No passado, o governo Obama elogiou Islamabad por lançar uma grande ofensiva militar contra o Taleban paquistanês no nordeste do país, onde acredita-se que Osama bin Laden e outros líderes da Al-Qaeda estejam escondidos.

 

Os EUA também incitaram o Paquistão a expandir a campanha contra os militantes do Haqqani no distrito tribal do Waziristão do Norte, o que oficiais paquistaneses afirmam não terem poder para fazer. Mas eles também podem estar apenas relutantes em danificar uma antiga relação que pode continuar a ser útil.

 

Especialistas acreditam que justamente por causa de seus antigos laços com o Taleban, o Paquistão é o único país na região que pode negociar com a insurgência. Dado o objetivo dos EUA de sair do Afeganistão já em 2011, o Paquistão acredita que é vital manter relações com líderes do Taleban, que podem voltar ao poder no país, segundo o Stratfor.

 

"Os paquistaneses também sabem que os EUA estão saindo, e que o Taleban ou uma coalizão incluindo a insurgência pode governar o Afeganistão quando os americanos deixarem o país", disse um especialista do think-tank na análise.

 

Segundo analistas paquistaneses, o governo Obama manterá esse objetivo maior em mente enquanto lutam contra as consequências dos relatórios que vazaram.

 

"Se os EUA querem começar sua retirada do Afeganistão em julho de 2011, devem manter seu foco no que o Paquistão pode fazer, e não no que o ISI vem fazendo", afirmou outro especialista.

 

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