Após 5 anos, iraquianos questionam se invasão valeu a pena

Cinco anos depois de as forçasnorte-americanas e britânicas terem invadido o Iraque ederrubado do poder Saddam Hussein, muitos iraquianos seperguntam se valeu a pena enfrentar tanta violência e caosresponsáveis por virar de cabeça para baixo suas vidas. O custo humano da empreitada é assustador -- algo entre 90mil e 1 milhão de civis iraquianos foram mortos, segundo váriasestimativas; quase 4.000 soldados dos EUA perderam suas vidas;e 4 milhões de iraquianos fugiram de suas casas. Do lado positivo, o país livrou-se de um dos ditadores maiscruéis do século 20. E hoje, os iraquianos realizam eleiçõeslivres e possuem uma nova Constituição. Para os moradores do país, decidir sobre se a invasão valeuou não o sacrifício depende parcialmente da vertente religiosaou da etnia a que pertencem e do local onde moram. Saddam, um sunita, perseguiu os xiitas, majoritários noIraque, e os curdos. Os xiitas hoje controlam o país ao passoque os sunitas, antes no poder, passaram à margem. Em Bagdá, epicentro de uma guerra sectária em 2006 e 2007que quase dividiu o Iraque, os moradores anseiam pela segurançacom que contavam na era Saddam. Já no sul xiita, os habitantesnão precisam mais temer os carrascos do ditador, mas facçõesxiitas rivais começaram a entrar em conflito. No norte, a economia em grande parte autônoma do Curdistãoexpande-se. Os curdos chamam a região de "o outro Iraque". Segundo o ministro iraquiano das Relações Exteriores,Hoshiyar Zebari, que é curdo, o Iraque caminha na direçãocerta. Os convencidos de que a invasão foi um erro deveriamlembrar-se das atrocidades de Saddam, afirmou. Zebari disse que uma prova do apoio da maioria dosiraquianos à deposição de Saddam havia sido a participaçãodeles nas eleições de 2005. "A brutalidade do regime de Saddam deformou a sociedade detantas formas que temos de ser pacientes", afirmou o chancelerem uma entrevista concedida à Reuters. "Comparada com a experiência de outros países, acho que nossaímos bastante bem. Mas, é verdade, esse tem sido um processoprofundamente custoso." Um Khalid, 40, cabeleireira em Bagdá, disse que a violênciachegou a ser tão aleatória que todos acreditaram napossibilidade de tornar-se a próxima vítima. "Não, não, não. O que aconteceu não valeu a pena. Os quedizem que a situação melhorou estão mentindo", afirmou. Muitos iraquianos lembram-se vivamente dos meses de caosque se seguiram à invasão, iniciada em 20 de março de 2003 ecujo símbolo maior foi a derrubada da estátua de Saddam naregião central de Bagdá. A euforia dos iraquianos, alimentada pelas novas liberdadese pela esperança de que os EUA transformassem o país em maisuma rica nação do golfo Pérsico, perdeu fôlego quando ossunitas investiram contra os novos governantes e carros-bombatransformaram os mercados e as mesquitas do Iraque em campos damorte. Em fevereiro de 2006, supostos militantes da Al Qaedaexplodiram uma mesquita xiita importante da cidade de Samarra,provocando uma onda de violência sectária em meio à qual ser umsunita ou um xiita no bairro errado poderia significar uma penade morte. "Antes de 2003, vivíamos sob um regime duro, ninguém podenegar isso", afirmou Abu Wasan, 55, ex-brigadeiro-general doExército e membro do Partido Baath, de Saddam, uma legendaextinta com a invasão. "Mas, pelo menos, nunca ouvimos falar sobre corpos sendojogados no lixo só porque a pessoa tinha um nome xiita ousunita." O pior da carnificina sectária encerrou-se, ao menos porenquanto. Um ano atrás, a polícia costumava achar até 50 corposao dia nas ruas de Bagdá. Esse número caiu para menos de dez, eisso por causa do envio, pelos EUA, de um contingente adicionalde soldados e por causa dos acordos de cessar-fogo seladospelos militantes xiitas e sunitas. De outro lado, em muitas áreas de Bagdá, as operações delimpeza étnica já não teriam mais nada para fazer. As cifras mais recentes, fornecidas pelo renomado grupo dedefesa dos direitos humanos Iraq Body Count, afirmam que 89 milcivis foram mortos no país desde 2003. Uma pesquisa realizadapor um dos maiores grupos de pesquisa da Grã-Bretanha, noentanto, calcula o número de mortos em algo próximo do 1milhão. O número de baixas sofridas pelas Forças Armadas dos EUAcontinua em 3.975. (Reportagem adicional de Ahmed Rasheed, Wisam Mohammed eAseel Kami em Bagdá e repórteres em Basra, Najaf, Ramadi,Kirkuk, Baiji e Mosul)

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