Após derrubar presidente, xiitas prendem líderes sunitas no Iêmen

Crise marcada pela divergência entre as duas principais correntes do Islã se concentra em Áden, segunda maior cidade e onde está o principal porto do país; Irã pede que Omã interceda por fim de bombardeios de coalizão liderada por sauditas

REUTERS, AP, AFP e EFE

05 de abril de 2015 | 22h00

Os rebeldes xiitas houthis, em uma grande demonstração de força no Iêmen, detiveram ontem mais de cem membros, incluindo dirigentes, do sunita Partido da Reforma Islâmica (PRI), braço político da Irmandade Muçulmana no país. Eles também avançaram sobre a cidade de Áden, um dia depois de a Rússia pedir na ONU uma pausa dos bombardeios da coalizão árabe por razões humanitárias.

O movimento xiita, que tem o apoio do Irã, prendeu os dirigentes sunitas após a legenda anunciar seu apoio à campanha militar contra o grupo liderada pela Arábia Saudita. Desde o dia 26, uma coalizão árabe tem conduzido bombardeios contra alvos xiitas no Iêmen.

Fontes do PRI explicaram que os milicianos houthis entraram nas casas de vários dirigentes políticos e os detiveram, junto com outras pessoas que estavam com eles. Entre os detidos estavam o membro do comitê central do partido, Hammoud al-Zarhi, e o chefe do departamento social, Abdullah Sattar.

Os houthis entraram também na casa do presidente do PRI, Mohamed al-Yadumi, no bairro de Al-Rauda, no norte da capital, Sanaa. Como não o encontram, levaram seu filho Soheib. Em nota, o PRI afirmou que as ações “complicam a já deteriorada situação que vive o Iêmen desde o golpe de Estado realizado pelos houthis”.

Apesar dos bombardeios da coalizão, os rebeldes xiitas, que já controlam a capital e as regiões do norte e do leste do país, conseguiram avançar na importante cidade de Áden. Depois de tomar o controle da administração da província, eles se aproximavam ontem do porto, o mais importante do país.

Os houthis e seus aliados, militares fiéis ao ex-presidente Ali Abdullah Saleh, atacaram zonas residenciais, incendiando tendas, deixando mortos, feridos e dezenas de famílias desabrigadas. Um balanço provisório de ontem dizia que ao menos cinco civis foram mortos. Na sexta-feira, a ONU informou que os combates, em duas semanas, já tinham deixado 519 mortos e 1,7 mil feridos.

A disputa se concentra agora em Áden, segunda maior cidade do Iêmen. Os xiitas já haviam tomado o palácio presidencial da cidade na quinta-feira após intensos combates com as forças partidárias do presidente Abdo Rabbo Mansour Hadi, que está refugiado na Arábia Saudita. Os bombardeios aéreos acabaram forçando os rebeldes a recuar.

O avanço dos houthis ocorre apesar do sul do Iêmen ser um dos alvos principais dos ataques da coalizão árabe que bombardeia as posições do grupo. Em Áden, que foi a base de Hadi antes de se refugiar em Riad e após fugir de Sanaa, morreram, desde o dia 26, pelo menos 185 pessoas, sem contar as baixas do lado dos houthis.

O Irã, principal aliado externo do grupo, pediu ajuda a Omã para deter “imediatamente” os bombardeios da coalizão, segundo informaram os meios de comunicação iranianos. O sultanato, que mantém boas relações com Teerã, é a única monarquia do Golfo Pérsico que não participa da aliança militar.

Vários países, entre eles Rússia, Índia, Indonésia e Paquistão, retiraram seus cidadãos do Iêmen nos últimos dias. China, Djibuti e Sudão tinham planos de fazer o mesmo ontem, segundo o porta-voz da coalizão, o general Ahmed Asiri.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha informou ter recebido aprovação da coalizão militar para levar fornecimento médico e trabalhadores de ajuda humanitária ao país. A agência vinha negociando há quase uma semana a entrega de recursos vitais para o Iêmen. Segundo ela, os aviões devem aterrissar hoje no país.

No sábado, a Rússia pediu ao Conselho de Segurança da ONU que pressione por uma pausa nos ataques aéreos para permitir a retirada de civis estrangeiros e diplomatas. O país apresentou o rascunho de resolução ao Conselho a portas fechadas.

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