Após divulgação de vídeo, militares podem reabrir investigação no Iraque

Vídeo mostra ataque de helicópteros Apache que deixou 12 mortos em Bagdá em 2007

Reuters e Efe,

07 de abril de 2010 | 17h48

Os militares dos Estados Unidos estão analisando um vídeo, divulgado nesta semana na Internet, que mostra um ataque de helicópteros Apache que deixou 12 mortos em 2007 em Bagdá, entre eles dois funcionários da Reuters, e podem reabrir uma investigação sobre o incidente, disse uma fonte militar sob anonimato nesta quarta-feira, 7.

A análise preliminar do vídeo secreto está sendo feita por advogados do Comando Central dos EUA, responsável pela guerra do Iraque, segundo essa fonte, acrescentando que há suspeitas de violação às regras de envolvimento em combate.

"Estamos tentando descobrir se (uma nova investigação) se justifica", disse essa fonte, segundo a qual o resultado da análise será passado a comandantes militares. A nova investigação poderia ficar a cargo do Comando Central ou do próprio Exército.

O vídeo, reproduzindo a mira da metralhadora de um helicóptero em ação no dia 12 de julho de 2007, foi amplamente visto no mundo todo desde que foi colocado na página do grupo Wikileaks, especializado em divulgar casos de corrupção governamental e empresarial, na segunda-feira.

O áudio que acompanha o vídeo reproduz a conversa entre os tripulantes do helicóptero. Julian Assange, porta-voz do WikiLeaks, disse que os militares falavam "como se estivessem jogando um jogo de computador e seu desejo fosse obter placares altos" com a morte de oponentes.

A gravação mostra uma vista aérea de um grupo de homens andando em uma praça de Bagdá. Os tripulantes comentam que alguns deles estão armados.

De acordo com o WikiLeaks, esses "homens armados" na verdade eram o fotógrafo da Reuters Namir Noor-Eldeen, de 22 anos, e seu assistente e motorista, Saeed Chmagh, de 40. As armas na realidade eram câmeras. Os dois morreram.

David Schlesinger, editor-chefe da Reuters, defendeu na quarta-feira que a investigação seja reaberta. "A Reuters desde o começo pediu transparência e um inquérito objetivo para que todos possam aprender lições com esta tragédia", afirmou.

De acordo com os militares, a investigação feita logo após o incidente mostrou que as forças dos EUA não estavam cientes da presença dos funcionários da agência de notícias. Achavam estar atacando insurgentes, e confundiram uma câmera com um lançador de granadas.

O WikiLeaks disse que obteve o vídeo criptografado de um delator militar, e então conseguiu violar a codificação e investigar o caso.

O major John Redfield, porta-voz do Comando Central, disse na quarta-feira que nem o Comando Central, com sede na Flórida, nem as forças dos EUA no Iraque "têm uma cópia desse vídeo". Mas acrescentou: "Não estamos contestando sua autenticidade."

A Anistia Internacional e o Instituto Internacional de Imprensa defenderam nesta quarta uma investigação independente, profunda e imparcial do caso.

"Este vídeo altamente perturbador parece mostrar que após o ataque inicial as tropas dos EUA abriram fogo contra pessoas que buscavam assistir um ferido, machucando duas crianças e matando várias outras pessoas", afirmou em nota Malcolm Smart, diretor do programa de Oriente Médio e Norte da África da Anistia.

 

O IPI, uma rede mundial de proprietários e diretores de meios de comunicação,afirmou em um comunicado que "o Exército se recusou a publicar informações sobre como os profissionais de imprensa foram assassinados".

 

Além disso, para o diretor do IPI, David Dadge, "este vídeo abre uma série de questões vitais sobre as circunstâncias das mortes não só dos dois jornalistas da 'Reuters', mas também de vários civis".

 

"As autoridades devem perceber que, agora mais que nunca, os conflitos modernos são noticiados de uma maneira que teria sido inconcebível no passado, e que as tentativas de esconder essa informação à opinião pública só danifica a reputação dos Estados Unidos", acrescenta Dadge, após qualificar de "preocupantes" as supostas tentativas de manter o vídeo em segredo.

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