Ben Curtis/AP
Ben Curtis/AP

Após mortes, forças de segurança recuam em Benghazi

Segundo fontes, operação de repressão em resposta aos protestos já mataram 84 pessoas

Reuters

19 de fevereiro de 2011 | 19h29

TRIPOLI e CAIRO - Forças de segurança na segunda maior cidade da Líbia mataram pelo menos três pessoas neste sábado, 19, mas recuaram a um complexo fortificado, relatou uma testemunha após o pior levante das quatro décadas de Muammar Gaddafi no poder. A organização Human Rights Watch disse que 84 pessoas foram mortas nos últimos três dias, resultado de uma intensa operação de repressão em resposta aos protestos contra o governo que procuram seguir os passos de revoltas nos vizinhos Egito e Tunísia.

  

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Não há sinais de uma rebelião de alcance nacional, com a violência concentrada nos arredores da cidade de Benghazi, mil quilômetros a leste da capital, onde o apoio a Kaddafi é tradicionalmente menor do que no restante do país.

Um residente de Benghazi disse que forças de segurança que mataram dúzias de manifestantes nas últimas 72 horas foram confinadas em um complexo, que ele chamou de Comando Central, de onde atiradores de elite disparavam contra os manifestantes.

"Eles mataram três manifestantes daquele prédio hoje", declarou a testemunha, que não quis se identificar, à Reuters.

"No momento, a única presença militar em Benghazi está confinada ao Comando Central da cidade. O restante da cidade está liberado", disse.

"Milhares e milhares de pessoas se reuniram diante da corte de Justiça de Benghazi. Agora há clínicas improvisadas, ambulâncias, alto-falantes, eletricidade. Está tudo equipado."

"Não há escassez de comida, embora nem todas as lojas estejam abertas. Os bancos estão fechados. Todos os escritórios do comitê revolucionário (governo local) e delegacias de polícia da cidade foram queimados", afirmou.

O relato não pode ser confirmado de forma independente. Uma fonte do aparato de segurança ofereceu uma versão diferente, dizendo que a situação na região de Benghazi está "80 por cento sob controle".

Em Londres, o ministro britânico das Relações Exteriores, William Hague, disse que tinha relatos de que armas de fogo pesadas e unidades de atiradores de elite estão sendo usados contra os manifestantes. "Isto é claramente inaceitável e horripilante", disse em um comunicado.

O jornal privado Quryna, sediado em Benghazi e que já foi ligado a um dos filhos de Gaddafi, afirmou que 24 pessoas foram mortas na cidade na sexta-feira, e que forças de segurança abriram fogo para deter manifestantes que atacavam o quartel-general da polícia e uma base militar onde armas estavam guardadas. "Os guardas foram forçados a usar balas de verdade", informou o diário.

O governo não divulgou nenhuma cifra de vítimas nem fez comentários oficiais sobre a violência.

Um grupo de 50 acadêmicos religiosos líbios apelaram pelo fim da violência. Uma cópia do libelo foi fornecida à Reuters. Longe da região sul, a Líbia parecia calma.

Na Praça Verde, no centro de Trípoli, próximo da antiga cidade murada, centenas de pessoas se reuniram portando fotos de Gaddafi e entoando "Nosso líder revolucionário!" e "Seguimos o seu caminho", relatou um repórter da Reuters.

Um jornal estatal disse que a violência é parte dos "plano sujos e das conspirações concebidas pela América e pelo sionismo e pelos traidores do Ocidente".

Observadores da Líbia dizem que uma revolta no estilo do Egito é improvável, porque Gaddafi tem dinheiro do petróleo para aliviar os problemas sociais, e ainda é respeitado em grande parte do país.

 

Cúpula. A Liga Árabe disse neste sábado ser importante que aconteça em março a cúpula do organismo em Bagdá, devido ao que descreveu como "graves e fatais acontecimentos" no mundo árabe.

 

A Líbia, que detém a presidência rotativa da cúpula dos líderes árabes, afirmou nesta semana que a reunião em Bagdá seria adiada por causa da situação na região, onde os protestos estão desafiando líderes do Bahrein à Argélia.

 

Os presidentes do Egito e da Tunísia foram derrubados por protestos em massa neste ano.

 

Um comunicado emitido da sede da Liga Árabe, no Cairo, informou que um pedido formal de adiamento do encontro ainda não havia sido recebido pelo secretariado-geral do organismo. A cúpula está marcada para 29 de março.

 

"O secretariado-geral destaca a importância da realização da próxima cúpula árabe no cronograma", disse o comunicado da liga.

 

As circunstâncias atuais exigem "um maior grau de coordenação e de discussão para tratar os graves e fatais acontecimentos que estão ocorrendo na região árabe", disse o documento.

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