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Ariel Sharon, uma vida repleta de claridades e sombras

Ele deixou este mundo depois de passar os últimos oito anos da sua vida em coma. Em silêncio. Ouvia o que terra ainda lhe dizia? Há pouco tempo neurologistas israelenses e americanos o examinaram. E ficaram surpresos com a intensa atividade cerebral deste homem agonizante que já não pesava mais de 50 quilos. Mas estaria consciente do que se passava à sua volta? Último mistério antes de ele penetrar, algumas semanas depois, no grande segredo da morte.

Gilles Lapouge,

11 de janeiro de 2014 | 10h53

Sua partida deixará um grande vazio. O poeta francês Victor Hugo já se referiu ao alvoroço que fazem os heróis quando morrem: "Oh, que ruído terrível fazem no crepúsculo, estes carvalhos que abatemos para a fogueira de Hércules".

Ariel Sharon foi um herói. E sua vida repleta de claridades e sombras. Foi um magnífico guerreiro e nos últimos momentos da sua vida consciente, em 2004 e 2005, um político imaginativo. Quantas incoerências em sua vida. Foi detestado e adulado, admirado e desprezado. Mas fica uma certeza: ele foi por vezes o destino doloroso e grandioso de Israel.

"A guerra de independência de Israel não acabou. Toda a minha vida foi passada neste conflito. Combater foi a tarefa da minha geração. E permanecerá a tarefa da próxima", ele afirmou em 2001. E de fato foi um guerreiro autêntico e implacável este homem nascido na Palestina em 1928, filho de um polonês e mãe bielo-russa. Desde antes da independência de Israel e posteriormente ele se manteve na linha de frente de todos os combates - guerra entre israelenses e árabes de 1948-1949, de Suez, dos Seis Dias, do Yom Kippur.

Muitas vezes extrapolou os limites da legalidade. Em 1952, quer formar uma "unidade de comandos especializados em represálias". Seus superiores hierárquicos proíbem. Em 14 de outubro de 1952, sua unidade arrasa o vilarejo de Qibia, na Jordânia, e 69 habitantes são massacrados. Sharon terá de se defender.

No curso das guerras, sua bravura o leva ao ápice. Mas a carreira fulgurante (em 1982 tornou-se ministro da Defesa) sofre uma parada brutal em 1983, quando da invasão do Líbano pelo Exército israelense.

Foi o episódio de Sabra e Chatila.

Falangistas cristãos libaneses atacam os campos de Sabra e Chatila e massacram entre 460 e 4.000 palestinos. O mais inquietante foi que os dois campos estavam sob controle do Exército israelense e ele poderia ter impedido essa carnificina. Ficou impassível e 400.000 israelenses protestaram contra essa tragédia. Uma ação judicial é impetrada. O juiz da Suprema Corte evoca "a responsabilidade pessoal" de Sharon. Este julgamento tinha base? Ninguém saberá decidir. Mas o que é certo é que por alguns anos Sharon fica afastado.

Retorna em 1990. Ocupa postos elevados. Membro dos "falcões", assume a liderança do partido de direita Likud, em 1999, após a demissão de Binyamin Netanyahu. Será ele, por suas provocações em Jerusalém, (visita à Esplanada das Mesquitas e o Monte do Templo) um dos responsáveis pela Segunda Intifada?

Em 2001, torna-se primeiro ministro e é reeleito em março de 2003. Adota a política clássica da direita: segurança máxima, construção de um muro de separação no interior da Cisjordânia e em torno de Jerusalém, criação de colônias.

No final de 2004, a grande reviravolta. Sharon determina a retirada unilateral das colônias israelenses da Faixa de Gaza. Para seus amigos do Likud, é uma consternação. Vergonha. Sharon precisa formar uma aliança precipitada com os socialistas. Em novembro de 2005, ele se demite do Likud e cria um novo partido de centro-direita, o Kadima.

Algumas semanas depois, em 18 de dezembro de 2005, sofre um derrame. Recupera-se rapidamente, mas em 4 de janeiro de 2006 sofre um novo derrame. E entra num coma profundo. Quatro anos depois é transferido para seu "rancho dos Sicômoros", mas o tratamento a domicílio tem um custo exorbitante (300.000 euros por ano) e ele é levado de volta para o hospital. Para os médicos não há esperança, mas os filhos decidem mantê-lo com vida.

Israel continua sua vida tumultuada, heroica e complicada. A Faixa de Gaza está nas mãos dos palestinos do Hamas, e sabemos o que sucederá proximamente. Quanto ao Partido fundado por Sharon, o Kadima, às vésperas do seu derrame, depois do sucesso de Ehud Olmert nas eleições de 2006, perde energia e projeção. Nas eleições legislativas de 2013, é duramente derrotado. Consegue obter apenas dois assentos no Parlamento. Tradução de Terezinha Martino

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