Ataque a político anti-Síria agrava crise libanesa

Morte de Antoine Ghanem acontece a menos de uma semana da escolha do futuro presidente

Gustavo Chacra, especial para o Estado,

19 de setembro de 2007 | 19h35

Mais uma vez Beirute. Mais uma vez um carro-bomba. E mais uma vez a vítima era um crítico da Síria que integrava a coalizão governista 14 de Março. O alvo, agora, foi o parlamentar Antoine Ghanem, membro da Falange, um antigo partido radical cristão-maronita que ultimamente se tornou mais moderado. Além dele, morreram outras oito pessoas e cerca de 20 ficaram feridas. Veja TambémGhanem é o 8º político assassinado desde 2005 Como em um filme já visto inúmeras vezes, o governo dos Estados Unidos acusou a Síria. Políticos governistas em Beirute ecoaram as declarações de Washington. O regime de Damasco negou. Opositores libaneses apenas lamentaram. E, para não perder o costume, uma ou outra voz levantou a hipótese de que os israelenses estariam por trás da ação.  A aparência similar, no entanto, esconde uma complicação extra em relação às ações anteriores: o ataque terrorista ocorre a menos de uma semana da data que marca o início do processo parlamentar para a escolha do futuro presidente do Líbano. O mandato do atual, Emile Lahoud, termina em 25 de novembro. Teoricamente, a eleição está prevista para ocorrer na próxima terça-feira. Porém, a Constituição permite que o futuro presidente seja escolhido em um prazo de até dois meses. Como todos os seus pares na 14 de Março, Ghanem sabia que corria o risco de ser vítima de um ataque terrorista. Seus aliados Pierre Gemayel, Walid Eido e Gibran Tueni foram mortos em circunstâncias idênticas a dele. Ao todo, já são sete políticos anti-Síria mortos no Líbano nos últimos dois anos. Precavido, fez o mesmo que outras dezenas de figuras políticas libanesas. Buscou refúgio no exterior. Em parte por segurança, em parte para tratar de problemas de saúde. Voltou ao Líbano por causa das eleições da próxima semana. Chegou a esconder a placa do carro, que indica que se trata de um parlamentar. Mas não foi o suficiente para escapar do atentado que o matou em um bairro cristão de Beirute no fim da tarde desta quarta-feira, 19. Na capital libanesa, após o atentado, as pessoas correram para as suas casas para acompanhar o noticiário. As TVs todas pararam a programação para transmitir a cena da tragédia. Pelos celulares, libaneses telefonavam para parentes e amigos para saberem se estavam bem. Por meio da internet, conversavam com pessoas no exterior. Simpatizantes da oposição e do governo brigavam em chats. Damasco Já em Damasco, o cenário era diferente. Na parte velha da cidade, as pessoas começavam a ir para as mesquitas rezar antes do Iftar - quebra do jejum do Ramadã (mês sagrado para os islâmicos). Apenas os restaurantes do bairro cristão da capital síria tinham clientes. Em um deles, uma TV transmitia um jogo de futebol. Alguém soube do ataque e mudou para as TVs sírias. Todas mostravam ao vivo imagens de mesquitas de Damasco. A saída foi colocar na TV Al Manar, do Hezbollah, que cobria ao vivo o atentado. Enquanto os libaneses falam a palavra Síria o tempo todo, em Damasco o principal assunto ainda é a misteriosa ação israelense da semana passada. Porém, é obvio que a eleição libanesa tem enorme importância na Síria. O cargo de presidente, um dos três mais importantes do Líbano, é destinado exclusivamente aos cristãos-maronitas. Os islâmicos sunitas têm o posto de premiê. Ja o presidente do Parlamento sempre tem que ser islâmico xiita. As outras 14 religiões do Líbano dividem outros cargos.  Na prática, a posição mais forte é do primeiro-ministro. Por este motivo, considera-se oposição todos que sejam contra o premiê Fuad Siniora - Hezbollah, Amal e quase todos os xiitas, os cristãos seguidores do líder populista Michel Aoun, além do presidente Lahoud, e uma pequena parte de sunitas e druzos. Esse grupo é aliado da Síria. Ja os governistas, pró-EUA e Arábia Saudita, contam com o líder sunita Saad Hariri, cerca da metade dos cristãos e a maioria dos druzos. Oposição O candidato da oposição é Michel Aoun, um antigo inimigo da Síria que viveu 15 anos no exílio. No seu retorno, ironicamente, ficou do lado dos aliados de Damasco. O governo tem vários candidatos. O mais forte é Nassib Lahoud (nenhuma relação com o atual presidente). O governo de Siniora quer que o presidente seja escolhido por maioria simples. Porém, cada parlamentar morto é um voto a menos. Agora são 68 votos, de um total de 126. A oposição lembra que a Constituição obriga dois terços dos votos no Parlamento. Nas últimas semanas, se intensificaram as negociações para um nome de consenso. O mais forte é o do comandante das Forcas Armadas Michel Suleiman. Porém, se antes do atentado não havia acordo, agora fica ainda mais difícil. Se não houver solução até o fim de novembro, o Líbano pode acabar sem presidente ou com dois governos paralelos. Isso não é novidade. Situação similar ocorreu em 1988. O resultado foi um dos períodos mais sangrentos da guerra civil. Como em Beirute a história sempre se repete, é bom ficar atento.

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