Ataques aéreos calam armas de Gaddafi em cidade líbia

Aviões do Ocidente lançaram ataques aéreos contra tanques e artilharia do líder líbio Muammar Gaddafi que cercavam a cidade de Misrata nesta quarta-feira, após um almirante dos EUA afirmar que esses seriam os próximos alvos da operação.

MARIA GOLOVNINA E MICHAEL GEORGY, REUTERS

23 de março de 2011 | 16h19

Em tom desafiador, Gaddafi, que enfrenta uma quarta noite de ataques aéreos contra a Líbia, afirmou que aqueles que atacam o país são "um bando de fascistas" que terminarão na lata de lixo da história.

As potências ocidentais que aplicam a resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) para proteger os civis líbios enfrentam dificuldades para concordar sobre uma estrutura de comando que inclua a Otan depois que Washington anunciou que quer passar adiante a liderança da campanha nos próximos dias.

Embora os ataques aéreos do Ocidente tenham atingido por quatro noites seguidas as defesas antiaéreas líbias e um comboio no leste, os tanques de Gaddafi mantiveram o bombardeio a Misrata no oeste, matando dezenas de pessoas esta semana. Moradores disseram que está ocorrendo um "massacre", com médicos tratando os feridos nos corredores dos hospitais. Atiradores do governo mataram 16 pessoas na quarta-feira, disseram os rebeldes.

"Agora, com os ataques aéreos, estamos mais otimistas", disse à Reuters por telefone Saadoun, um morador de Misrata. "Esses ataques nos dão esperança, especialmente porque eles são precisos e alvejam as forças (de Gaddafi) e não apenas as bases."

"Antes dos ataques, tanques bombardearam a cidade...mas agora eles não dispararam nem uma única vez depois do ataque aéreo."

Tais missões de bombardeio de precisão podem ser direcionadas a longa distância com sistemas eletrônicos e às vezes elas usam agentes rebeldes na zona de alvo ou forças especiais de patrulhas de reconhecimento que guiam os caças.

Ao menos duas explosões foram ouvidas em Trípoli, a capital líbia, antes do alvorecer na quarta-feira e Gaddafi parecia preparado para não ceder.

"Nós não vamos nos render", disse Gaddafi a simpatizantes que formavam um escudo humano para protegê-lo em seu complexo de Trípoli, que foi atacado em 1986 pelo governo Reagan, dos EUA, e agora pela atual rodada de ataques aéreos.

Não havia notícias sobre mortes civis causadas pelos ataques aéreos ocidentais, disse o contra-almirante Gerard Hueber, o principal oficial militar norte-americano envolvido na aplicação da zona de exclusão aérea. Mas as forças líbias não haviam se retirado de Misrata, afirmou ele.

"Não há relatos de vítimas civis. Nossa missão aqui é proteger a população civil e nós escolhemos nossos alvos e planejamos nossas ações com essa prioridade principal", disse ele a jornalistas por telefone desde o navio de comando USS Mount Whitney no Mediterrâneo.

Antes dos ataques de Misrata, o contra-almirante norte-americano Peg Klein disse que os caças, que atacaram as defesas antiaéreas líbias, agora seriam enviados para atacar os tanques de Gaddafi.

TANQUES SÃO O ALVO

"Algumas dessas cidades ainda têm tanques avançando sobre elas para atacar o povo líbio", disse Klein, comandante do grupo expedicionário a bordo do USS Kearsarge, perto da costa líbia.

"Estamos autorizados, e o presidente fez a conexão entre a resolução do Conselho de Segurança e o que ele considera ser nosso mandado legal para atacar esses tanques. Assim, esse é o tipo de alvo que será perseguido por nossa aeronave de combate."

O vice-marechal do ar britânico Greg Bagwell disse na quarta-feira numa base na Itália que as forças ocidentais haviam destruído a força aérea da Líbia e voavam sem problemas pelo espaço aéreo do país, atacando as tropas no solo onde quer que estivessem ameaçando civis.

O cerco a Misrata, que já dura semanas, tem se tornado cada vez mais desesperador. A água está cortada há dias e a comida está acabando, os médicos operam os pacientes nos corredores dos hospitais e muitos feridos têm ficado sem tratamento ou são simplesmente mandados embora.

Os ataques aéreos não conseguiram parar os franco-atiradores.

"Os atiradores estão atirando contra o hospital e suas duas entradas estão sob forte ataque. Ninguém consegue entrar nem sair", disse Saadoun.

Não era possível checar a informação.

O poder de fogo do Ocidente manteve os aviões de guerra de Gaddafi no solo e expulsou suas forças dos limites do reduto rebelde de Benghazi, mas elas ainda têm atacado refúgios dos rebeldes que lutam para depor seu governo de 41 anos.

No leste do país produtor de petróleo do norte da África, rebeldes desorganizados e pouco equipados falharam na tentativa de capitalizar os ataques aéreos e estão encurralados.

Os combatentes não conseguiram desalojar as forças de Gaddafi da intersecção de Ajdabiyah, ponto-chave no leste, criando um grande risco de impasse, disseram analistas de segurança.

Os rebeldes lutavam contra o Exército dentro de Ajdabiyah, disseram combatentes rebeldes na quarta-feira, e os moradores fugiam da cidade.

"Entramos em Ajdabiyah ontem (terça-feira) às 14 horas. Não é mais Ajdabiyah", disse o combatente rebelde Faraj Ali, em seu caminhão equipado com uma metralhadora. "Está morta, destruída, uma cidade fantasma."

Uma família que deixava Ajdabiyah disse que uma parte dos moradores permanecia na cidade. "Eu vi corpos nas ruas, e enterrei e limpei alguns eu mesmo enquanto eles apodreciam no necrotério. Não há eletricidade há uma semana", disse um homem, que não quis se identificar.

Mísseis caíram perto de posições dos rebeldes na quarta-feira e o bombardeio dos dias passados matou uma série de combatentes rebeldes.

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