Brasil fez o que tinha que fazer para mediar acordo com Irã, diz Lula

Presidente afirmou que outros países resolveram punir Teerã, mas que Brasil fez seu papel

Tânia Monteiro, da Agência Estado, com informações de O Estado de S. Paulo,

21 de junho de 2010 | 18h52

BRASÍLIA- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira, 21, que "o Brasil fez o que tinha que fazer" com relação às tentativas de mediar acordo envolvendo o programa nuclear do Irã.

 

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"Precisava o Irã sentar à mesa. Nós fomos lá e provamos que somos capazes de convencer o Irã a sentar à mesa. Mas eu acho que os outros resolveram punir o Irã. Nós fizemos o nosso papel", disse Lula, ao ser questionado pela imprensa sobre a entrevista do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, ao Financial Times, na qual o ministro admite que o Brasil não tentará mais mediar a questão, após os Estados Unidos rejeitarem o acordo fechado entre Irã, Turquia e Brasil.

 

"Não vamos novamente ter uma posição proativa (em relação à negociação iraniana), a não ser que sejamos solicitados", disse Amorim ao FT. Segundo o ministro, o Brasil acabou prejudicado "por fazer coisas que todos afirmavam ser positivas". "Ao final, descobrimos que tem gente que não sabe receber "sim" como resposta", alfinetou o chanceler.

 

Uma autoridade americana que pediu anonimato comemorou a declaração de Amorim. "Não vejo o Brasil e a Turquia em uma posição de exercer essa mediação", disse ao Financial Times. "Por terem votado contra as sanções da ONU, eles não são mais realmente neutros."

 

De acordo com o Itamaraty, o Brasil foi incentivado pelo próprio presidente Barack Obama a selar o acordo de 17 de maio, que previa a troca na Turquia de 1.200 quilos de urânio iraniano por 120 quilos de combustível nuclear. Obama teria afirmado - por meio de cartas vazadas à imprensa pelo governo brasileiro - que o compromisso seria um sinal positivo, embora insuficiente para fazer os EUA desistirem de novas sanções a Teerã.

 

Mas, após o pacto ser firmado, a diplomacia americana adotou posição oposta. Washington justificou seu ceticismo em relação ao acordo afirmando que a rápida ampliação dos estoques iranianos de urânio praticamente anulava o impacto da troca sobre o avanço de Teerã em direção à bomba.

 

Conselho de Segurança

 

O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) está ultrapassado e precisa de sangue novo, disse Celso Amorim nesta segunda-feira. Ele reclamou também que os membros não permanentes não são levados a sério. "O Conselho de Segurança (CS) já não reflete a realidade política", mas "a realidade de 65 anos atrás", disse Amorim aos jornalistas durante uma visita a Viena, onde se reuniu com o chanceler austríaco, Michael Spindelegger.

 

O Conselho de Segurança deveria olhar para o G-20, o grupo de economias industrializadas e emergentes, disse ele, e incluir países como o Brasil, a Índia e a África do Sul como membros permanentes, além dos atuais cinco integrantes com direito a veto - Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, China e França. Amorim também criticou o Conselho por não ter levado a sério a tentativa conjunta do Brasil e da Turquia, no mês passado, de controlar o programa nuclear iraniano.

 

Brasil e Turquia, ambos membros não permanentes do CS, conseguiram um acordo de troca de materiais nucleares com o Irã numa tentativa de evitar novas sanções contra Teerã. Mas o acordo foi desconsiderado pelos Estados Unidos e outras potências da ONU. "Isso lança dúvidas sobre (nossa) credibilidade. A Turquia e o Brasil são países emergentes de conduta imaculada que se aproximaram de Teerã com boas intenções", afirmou Amorim.

 

O chanceler brasileiro também reclamou da "falta de transparência e de nível técnico", lembrando que os membros não permanentes do conselho só tomaram conhecimento do novo esboço das sanções contra o Irã pelos meios de comunicação. Brasil e Áustria estão entre os dez membros não permanentes do Conselho de Segurança, que mudam a cada dois anos.

 

Atualizado às 20h11 para acréscimo de informações

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