Brasil, Irã e Turquia fecham acordo sobre troca de urânio enriquecido

Irã vai entregar 1.200 kg de urânio e receberá em troca o material nuclear para reator de pesquisas médicas

Agência Brasil e Roberto Simon, enviado especial TEERÃ

17 de maio de 2010 | 07h28

União. Celso Amorim, Mahmoud Ahmadinejad, Lula, Tayyip Erdogan e Ahmet Davutoglu comemoram o acordo fechado. Foto: Morteza Nikoubazl/Reuters

 

TEERÃ - Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, além do primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan, fecharam hoje, 17, o acordo para que o urânio iraniano levemente enriquecido seja enviado ao território turco e, em troca, o país receba o produto enriquecido a 20%.

 

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Pelo acordo, o urânio enriquecido a 20% será remetido no prazo de um ano. Nesse período, haverá supervisão de inspetores turcos e iranianos.

 

O acordo foi assinado por Lula, Ahmadinejad e Erdogan durante reuniões paralelas do G15 (grupo que reúne 18 países não alinhados) em Teerã. Para as autoridades, o acordo encerra o impasse envolvendo o programa nuclear iraniano.

 

Ahmadinejad, porém, quer conversar sobre os acordos e as garantias para o Irã por parte do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Segundo diplomatas que acompanham as negociações, o presidente iraniano pretende obter garantias dos países que integram o conselho - Estados Unidos, França, Inglaterra, China e Rússia.

 

Ontem, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, anunciou que um acordo sobre o programa nuclear iraniano havia sido alcançado nas negociações da qual o Brasil participou. O anúncio atropelou autoridades brasileiras. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve uma agenda cheia em Teerã, mas não mencionou o entendimento em seus discursos.

 

Segundo Erdogan, que só confirmou sua visita a Teerã ontem, os iranianos aceitaram trocar seu urânio por material nuclear após 18 horas de negociação, na prática, abrindo mão de avançar no processo de enriquecimento no país. Até ontem à noite o Itamaraty não havia confirmado a informação. Mas Erdogan, seu chanceler, Ahmet Davutoglo, e fontes turcas que falaram ao Estado em condição de anonimato garantiram que o pacto já está selado.

 

O texto do novo acordo foi montado em cima de uma proposta debatida em outubro na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

 

As três partes envolvidas na negociação concordaram ontem que a troca ocorrerá em território turco. Não está claro se já foi definido o prazo entre a entrega do urânio e o recebimento do material nuclear. Em outubro, os EUA não aceitavam uma troca imediata, como exigia o Irã, porque, na prática, isso aceleraria o programa nuclear iraniano.

 

Valores morais

 

Qualificando Lula de "bom amigo" e "irmão", Ahmadinejad afirmou que Brasil e Irã compartilham "valores morais". "Somos contra a discriminação, o preconceito, a agressão e a tirania", disse o iraniano.

 

O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo da República Islâmica, também reuniu-se com Lula. "Os EUA se revoltam com países independentes, como o Irã e o Brasil", disse Khamenei a Lula. "Por isso eles fizeram esse estardalhaço antes de sua visita."

 

PONTOS-CHAVE

 

Proposta da AIEA

Em outubro, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) propõe ao Irã enviar urânio para França e Rússia, que o devolveriam enriquecido o suficiente para pesquisas

 

Condenação

Em novembro, a AIEA condena o Irã por manter segredo sobre estação de Qom. Teerã diz que motivação é política e anuncia construção de dez novas instalações nucleares

 

Pressão americana

O presidente americano, Barack Obama, diz que a única forma de frear o programa nuclear iraniano é a adoção de novas sanções pela ONU ao país. Grã-Bretanha, e França reforçam esta posição

 

Defesa brasileira

Contrariando os EUA, o presidente Lula afirma que sanções prejudicariam somente o povo iraniano e defende o direito do Irã de levar adiante um programa nuclear pacífico

 

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