Buraco no muro de Gaza é buraco na política israelense

Ação do Hamas fez com que o movimento extremista fosse respeitado até mesmo por seus oponentes

Steven Erlanger, The New York Times

26 de janeiro de 2008 | 20h50

Quando o Hamas abriu buracos na fronteira entre Gaza e o Egito, dando a milhares de palestinos a oportunidade de estocar remédios, comida e bens de consumo, ele também abriu um grande buraco na política israelense, apoiada por Washington, de espremer a população de Gaza na esperança de que ela se levantasse contra o Hamas.   Enquanto autoridades israelenses pressionavam o Egito para fechar a fronteira e se atropelavam em busca de uma solução eficiente, o aparente sucesso do Hamas pôs o Egito em um dilema e minou ainda mais as chances de o primeiro-ministro Ehud Olmert  e o presidente palestino Mahmoud Abbas, da facção Fatah, conseguirem sucesso na negociação de um tratado de paz - muito menos, no tempo de mandato que ainda resta ao presidente Bush.   Esforços iniciais do Egito, na sexta-feira, 25, para voltar a lacrar a fronteira  fracassaram quando o Hamas atravessou mais áreas do muro com escavadeiras, e os palestinos continuavam a entrar com facilidade no Egito no sábado, às vezes com carros e caminhões.   As táticas de confronto do Hamas, o ramo palestino da Irmandade Muçulmana, um grupo de oposição egípcio proibido, também representam um problema difícil para o presidente do Egito, Hosni Mubarak. O drama dos palestinos, especialmente dos de Gaza, é uma questão que comove profundamente os egípcios e outros árabes, uma questão freqüentemente promovida e, às vezes, manipulada por líderes árabes e canais árabes como a Al-Jazira.   Mas o Egito também tem compromisso com um tratado de paz e de cooperação em segurança com Israel, cuja meta de impedir um sucesso dos extremistas islâmicos do Hamas em Gaza é compartilhada, em silêncio, por Mubarak. O Egito recebe ajuda de quase US$ 2 bilhões anuais de Washington, que também está comprometido em deter a ascensão do Hamas, principalmente porque o grupo se recusa a reconhecer o direito de Israel e existir e se opõe às conversações de paz patrocinadas pelos EUA.   O Hamas, ao criar uma crise de fronteira depois de Israel expandir suas restrições à importação a partir de Gaza, em mais um esforço fracassado para deter o fogo de foguetes e morteiros contra solo israelense, conseguiu desviar as críticas de sua atuação como administrador de Gaza.   Não menos importante que isso, o Hamas ganhou uma medida de respeito por seus atos mesmo entre seus oponentes em Gaza, o que consolidou ainda mais seu controle. Agora, o Hamas está tentando forçar o Cairo a reconhecer esse controle e negociar diretamente com o Hamas para resolver a crise na fronteira. Abdel Moneim Said, diretor do Centro de Estudos Políticos e Estratégicos do Cairo, acusa o Hamas de imprudência. "O Hamas quer forçar demais o Egito: os túneis, empurrando as pessoas para o Egito, e agora estão tentando culpar os árabes por não resgatarem o povo em Gaza", disse ele. "O Hamas está administrando a crise distribuindo a culpa, embora seja o responsável, ou parcialmente responsável, ao menos, pelo que se passa".   Mas agora será difícil para Mubarak voltar a fechar a fronteira de vez. É mais provável que trabalhe me conjunto com Abbas e Israel, permitindo uma passagem regular. Mas até mesmo isso soará como uma vitória do Hamas, porque tanto o Egito quanto Israel terão sido forçados a fazer uma concessão  que poderiam ter feito a Abbas em qualquer momento dos últimos seis meses.   Abbas vai se reunir com Olmert no domingo, com o noticiário, como é comum - neste caso, a crise na fronteira - lançando uma sombra sobre as conversações de paz. Em um discurso em Ramallah no sábado, Abbas deixou claro que levaria adiante seu plano para que a Autoridade Palestina e sua Guarda Presidencial assumam o controle do lado palestino da passagem entre Gaza e Egito, a despeito da tomada de gaza pelo Hamas, em junho.   Abbas repetiu que não negociará diretamente com o Hamas até que o movimento se desculpe pelo "golpe" em Gaza e entregue o poder à Autoridade Palestina. Ao fazer isso, ele essencialmente rejeitou o convite do Egito por conversações com o Hamas no Cairo, que o líder do Hamas no exílio, Khaled Meshal, já havia aceitado.

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