Conselho dos Guardiões admite irregularidades na eleição

Governo do Irã detecta 3 milhões de votos a mais, mas diz que números não afetam resultado eleitoral

22 de junho de 2009 | 06h27

O órgão que supervisiona as eleições no Irã, o Conselho dos Guardiões, reconheceu nesta segunda-feira, 22, que houve irregularidades em mais de 50 zonas eleitorais nas eleições presidenciais do último dia 12. O Conselho declarou que o número de votos contados em 50 cidades ultrapassou o de eleitores  registrados, mas acrescentou que isso não iria afetar o resultado geral da eleição, vencida pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad.

 

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É a primeira vez que um órgão do governo de Teerã admite a possibilidade fraude na votação, denunciada pela oposição. Oficialmente, o presidente Mahmoud Ahmadinejad teve 63% dos votos e o candidato da oposição Mir Hussein Mousavi, 34%. O conselho, que na semana passada concordou em reabrir 10% das urnas, disse que apurava uma reclamação do candidato conservador, Mohsen Rezaei.

 

Também nesta segunda-feira, o Ministério do Exterior iraniano acusou países ocidentais de inflamar os protestos contra o resultado das eleições, espalhando "vandalismo e anarquia". Um porta-voz do governo disse que a mídia estrangeira é "porta-voz" de governos inimigos que buscam a desintegração do Irã.

 

Teerã amanheceu quieta, mas tensa, nesta segunda-feira, com segurança reforçada nas ruas para evitar novos protestos como os vistos na semana passada. O candidato presidencial derrotado, Mir Hussein Mousavi, afirma que houve fraude a favor do atual presidente Mahmoud Ahmadinejad, e exige a convocação de uma nova eleição. Mousavi pediu aos seus simpatizantes que continuem os protestos, mas sem colocar suas vidas em risco. "Protestar contra mentiras e fraude é seu direito. Em seus protestos, continuem a demonstrar calma", disse um comunicado em seu website.

 

Pelo menos dez pessoas teriam sido mortas em choques entre forças de segurança e manifestantes, durante os protestos de sábado. Outras 457 teriam sido presas por conta da violência, de acordo com a rádio estatal iraniana. A violência se seguiu a um alerta do líder supremo do Irã na sexta-feira, Aiatolá Ali Khamenei, que afirmou que novos protestos contra os resultados da eleição não serão tolerados.

 

Testemunhas disseram que não houve comícios na capital no domingo, um dia depois da provável morte de 10 manifestantes em choques com a polícia. Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, 23 jornalistas locais e blogueiros foram presos na última semana. Entre os detidos nos últimos dias, estavam vários membros da família do ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, um poderoso opositor a Ahmadinejad. Segundo analistas, as prisões foram uma surpresa, já que Rafsanjani é o líder da Assembléia dos Especialistas, um grupo dirigido por clérigos que tem poder para remover o líder supremo do Irã. Todos os seus parentes, no entanto, teriam sido soltos até a noite de domingo.

 

Contatando o inimigo

 

Falando em uma conferência de imprensa nesta segunda-feira, o porta-voz do Ministério do Exterior Hassan Qashqavi acusou os governos ocidentais de apoiar abertamente os violentos protestos, com o objetivo de minar a estabilidade da República Islâmica do Irã. "A difusão de anarquia e vandalismo por potencias ocidentais e pela mídia ocidental... não será aceita", disse ele.

 

Segundo o porta-voz, o Ocidente está agindo de maneira "antidemocrática", em vez de elogiar o compromisso do Irã com a democracia. Ele ainda voltou a lembrar que o resultado da eleição não será anulado. Nos últimos dias, o Irã vem criticando fortemente os governos americano e britânico, e Qashqavi citou nominalmente a BBC e a rede Voz da América, qualificadas por ele como "canais do governo".

 

Desde a semana passada, a BBC e outras empresas estrangeiras de mídia vêm reportando do Irã sob severas restrições. No domingo, o governo pediu ao correspondente permanente da BBC em Teerã, Jon Leyne, que deixe o país. "Eles (a BBC e a Voz da América) são porta-vozes da diplomacia pública de seus governos", disse Qashqavi. "Eles têm duas orientações em relação ao Irã: primeiro, intensificar divisões éticas e raciais dentro do Irã e, segundo, desintegrar os territórios iranianos." "Qualquer contato com algum desses canais, sob qualquer pretexto ou qualquer forma, significa contatar o inimigo da nação iraniana."

 

De acordo com analistas, as declarações de Mousavi e os protestos nas ruas são o maior desafio já enfrentado pelo Estado em seus 30 anos de existência como república islâmica. No domingo, milhares de agentes de segurança patrulhavam as ruas, mas não houve protestos.

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