Crescem dúvidas sobre prazo de Obama para deixar o Afeganistão

Os primeiros dos 30 mil soldados adicionais dos Estados Unidos chegarão em duas ou três semanas ao Afeganistão, mas o plano de começar a desocupar o país dentro de 18 meses pode ser revisto, disseram autoridades norte-americanas na quarta-feira.

ANDREW QUINN E PHIL STEWART, REUTERS

02 de dezembro de 2009 | 20h06

O presidente Barack Obama anunciou o envio de reforços e o cronograma para a retirada das tropas na noite de terça-feira, o que deve elevar o contingente norte-americano no país asiático a quase 100 mil soldados.

Em depoimento ao Senado, o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, disse que os primeiros soldados do reforço chegarão ao Afeganistão dentro de duas ou três semanas, e que essa fase de incremento das tropas pode durar de 18 a 24 meses.

Gates disse que o objetivo será eventualmente transferir a responsabilidade pela segurança aos próprios afegãos. Fazer isso até meados de 2011 será "crítico e, na minha opinião, factível," afirmou.

Mas Gates disse também que os comandantes militares iniciarão em dezembro de 2010 uma avaliação sobre o progresso alcançado, e que uma decisão final sobre quando iniciar a retirada vai depender disso.

De acordo com ele, Washington não abandonará o Afeganistão à própria sorte se a segurança do país parecer precária. "Não vamos simplesmente soltar esses caras na piscina e sair andando," afirmou.

Num aguardado pronunciamento à nação, Obama citou a campanha no Afeganistão como algo vital para a segurança norte-americana, e disse que seu objetivo é derrotar a milícia Taliban e impedir novos ataques da Al Qaeda, responsável pelos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA.

O líder republicano na Comissão de Serviços Armados do Senado, John McCain, manifestou dúvidas sobre o plano de retirada, ecoando temores de que o Taliban irá esperar a saída dos EUA para se reposicionar.

"Uma data para a retirada passa exatamente a mensagem errada tanto para nossos amigos quanto para os nossos inimigos," disse McCain, derrotado por Obama na eleição presidencial de 2008.

O discurso de Obama o coloca como arquiteto de uma nova fase na guerra do Afeganistão, que já dura oito anos. Isso aumentará o custo do conflito em 30 bilhões de dólares no ano que vem, num momento em que o país sofre com o elevado déficit público e outros problemas econômicos.

Muitos correligionários democratas de Obama criticaram o aumento do custo e dos riscos humanos, enquanto a oposição republicana queixou-se de que a data para desocupação deixa os militares de mãos atadas.

O debate pode causar prejuízos eleitorais para os democratas em 2010, quando haverá renovação da Câmara e de parte do Senado.

PRESSÃO REGIONAL

O almirante Mike Mullen, chefe do Estado-Maior dos EUA, disse à comissão do Senado que até julho haverá de 20 a 25 mil soldados adicionais no Afeganistão, com os restantes chegando nos meses seguintes.

Já os planos para retirá-los - o que pode ser politicamente crucial - são menos claros.

"Não acredito que tenhamos nos prendido à (data para a) saída," disse na audiência a secretária de Estado Hillary Clinton, para quem a meta citada por Obama serve como "sinal" de que os EUA não pretendem ter um envolvimento ilimitado no conflito.

Ela disse que o Paquistão - o vizinho politicamente frágil do Afeganistão, mas com armas nucleares - será pressionado a perseguir mais ativamente os militantes em seu território, e prometeu que Washington fará de tudo também para que o presidente afegão, Hamid Karzai, cumpra suas promessas de combater a corrupção.

O gabinete de Karzai divulgou nota dizendo que o Afeganistão saúda a mudança de estratégia dos EUA, embora estranhamente não tenha apresentado nenhuma declaração do próprio Karzai, que costuma ser visto como um elo fraco na estratégia obamista.

O comandante das forças dos EUA e da Otan no Afeganistão, general Stanley McChrystal, que pedia até 40 mil soldados adicionais para ganhar a guerra, elogiou as promessas de reforços feitas pelo presidente.

Já o Taliban, em nota divulgada por email, afirmou que o reforço só irá aumentar a resolução dos militantes. "Esta estratégia do inimigo não irá lhes beneficiar," garantiu.

Líderes europeus rapidamente saíram em apoio do plano dos EUA, mas a maioria evitou se comprometer com o envio de mais tropas para um conflito tão impopular e violento. Fontes oficiais dos EUA dizem que Washington gostaria de ter entre 5.000 e 7.000 soldados adicionais dos seus aliados no Afeganistão.

A Grã-Bretanha prometeu 500 soldados adicionais, elevando seu contingente para cerca de 10 mil; A Polônia se prontificou a levar 600 a mais, de um total de 2.000, enquanto a Itália anunciou um aumento não-especificado.

Em Bruxelas, o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, disse que seria realista esperar que os afegãos assumam no ano que vem a responsabilidade pela segurança em 10 a 15 regiões e distritos, mas que a transição só deve acontecer sob condições adequadas.

(Reportagem adicional de Adam Entous, David Morgan e Sue Pleming em Washington; David Brunnstrom em Bruxelas, Sayed Salahuddin em Cabul e Zeeshan Haider; Michael Georgy em Islamabad)

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