'Crianças crescem em bunkers', diz brasileiro em Israel

Publicitário conta que comunidade se organiza para conviver com ameaças e buscar abrigo em 15 segundos

Talita Eredia, estadao.com.br

08 de janeiro de 2009 | 12h15

Pouco depois da sirene que avisa o lançamento de foguetes palestinos contra a cidade israelense de Ashkelon soar pela sétima vez, o brasileiro Luiz Sztutman, de 29 anos, afirma que, apesar das dificuldades de viver sempre em alerta, as pessoas já se acostumaram a buscar abrigos em menos de 15 segundos. "Tocou a sirene a gente tem que buscar o abrigo. Você está na rua e pode entrar dentro de um prédio, as casas são abertas para pessoas quando as sirenes tocam", conta o paulistano.  Veja também:Israel culpa palestinos em ataque partido do LíbanoMísseis do Líbano contra Israel ameaçam 2º front da guerraIsrael intensifica bombardeio em Gaza no 13.º dia de ataquesAssembleia da ONU convoca reunião de emergência França provoca confusão ao anunciar cessar-fogo Trégua por 3h é piada, diz ex-relator da ONU brasileiro Especial traz mapa com principais alvos em Gaza Linha do tempo multimídia dos ataques em Gaza Brasileiros que vivem na região falam sobre o conflito Bastidores da cobertura do 'Estado' em Israel Conheça a história do conflito entre Israel e palestinos  Veja imagens de Gaza após os ataques      Como o país vive constantemente na expectativa de uma guerra, os chamados bunkers são construídos desde a criação do Estado de Israel, em 1948. Em cada bairro, a prefeitura constrói abrigos subterrâneos para a população. Segundo Sztutman, as casas que possuem um determinado número de metros quadrados também devem, por lei, ter um abrigo subterrâneo ou um quarto de proteção. "Em Ashkelon, que fica a mais ou menos 12 quilômetros de Gaza, as pessoas têm mais ou menos 15 segundos para entrar no bunker e quem estiver dirigindo precisa descer do carro e se atirar no chão, colocar a mão na cabeça e na nuca para se proteger, já que quando foguetes explodem no chão, espalham bolas de metal parecidas com as de gude que são colocados para atingir um maior número de pessoas", narra o paulistano.  O publicitário conta que a comunidade se organiza para conviver com a ameaça. Há grupos que fazem compras e entregam mercadorias para as pessoas que temem sair por conta dos ataques, como idosos. Os produtos básicos são vendidos com 50% de desconto para facilitar o estoque. "As crianças nascem e crescem dentro dos bunkers", conta o paulistano. Segundo Sztutman, dormir também é muito difícil. "Esta noite, acordei às 23h40 e depois às 2h30 da manhã por conta da sirenes. A gente acorda no meio da noite, sem sossego", conta. "Essa manhã, fui levar um amigo ao trabalho na zona industrial ao sul de Ashkelon, que fica muito perto de Gaza, e tive que me jogar no chão, porque tocou a sirene durante o trajeto. É esperar passar e rezar para nenhum míssil acertar a gente".  Sztutman relata ainda que os habitantes do norte e do sul de Israel têm o costume de abrir suas casas para receber a população das cidades ameaçadas até o fim do conflito, como aconteceu durante a guerra contra o Líbano, em 2006, na fronteira norte do país. Com o lançamento de foguetes do território libanês, a preocupação de não ter para onde ir cresceu. De família judia, o publicitário morou durante três anos em Israel na infância, e voltou a viver no país há mais de um ano, desde que foi agredido durante uma passeata em São Paulo por descendentes árabes. "A gente está mais seguro aqui do que fora", afirma. Sztutman ainda é incisivo ao afirmar que nunca voltaria a morar no Brasil. "Sou cidadão israelense e brasileiro, com muito orgulho de ter nascido em São Paulo, tenho meus melhores amigos na cidade, mas aqui posso manifestar a minha religião sem medo". Sobre as dificuldades de viver numa área de conflito, Sztutman diz que "a gente infelizmente se acostumou. Mas o que acontece: eu não tenho medo; tenho receio, sim, de que aconteça uma tragédia, mas a gente tem que ser forte e não pode desistir".

Tudo o que sabemos sobre:
IsraelFaixa de GazapalestinosHamas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.