Declínio do Hamas é motor do conflito

Para especialistas, união do grupo com Autoridade Palestina foi estopim da crise

Alessandro Giannini, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2014 | 02h02

A invasão da Faixa de Gaza pelo Exército de Israel é o ápice de uma escalada violenta entre o governo do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e o grupo islâmico Hamas. As origens desse conflito, indicam analistas, estão no distanciamento do grupo militante com o Egito após a saída da Irmandade Muçulmana do poder e no afastamento de antigos aliados, como a Síria, o Hezbollah e o Irã.

Enquanto Morsi e sua Irmandade Muçulmana estavam no poder, o Hamas beneficiou-se política e financeiramente de uma aliança quase informal com ambos. Após o golpe de Estado que levou o ex-chefe militar Abdel-Fattah al-Sissi à presidência, o grupo militante palestino viu secar sua principal fonte de apoio, além de testemunhar a interrupção do fluxo de armas e outros bens pelos túneis que ligam o Deserto do Sinai à Faixa de Gaza.

Sem dinheiro e afastado de antigos aliados, como Bashar Assad e o Hezbollah - envolvidos na guerra civil síria -, o Hamas foi levado a desistir do controle exclusivo de Gaza ao se unir ao Fatah, de Mahmoud Abbas, para formar um governo de união a fim de conduzir a Autoridade Palestina (AP).

Elliott Abrams, ex-conselheiro de Segurança Nacional do governo George W. Bush e especialista em Oriente Médio do Council on Foreign Relations (CFR), disse em entrevista por telefone ao Estado, que a aliança entre o Hamas e a AP está fadada ao fracasso.

"O Hamas não está disposto a pagar o preço de submeter suas milícias ao controle das forças de segurança da AP", ponderou Abrams. "E Abbas está em uma encruzilhada, pois não tem como arcar com a folha de pagamento dos funcionários do Hamas - cerca de 45 mil pessoas - e ainda corre o risco de perder a ajuda que recebe dos americanos, que como os europeus consideram o grupo uma organização terrorista.

Para Carly Beckerman-Boys, pesquisadora visitante do Centro do Oriente Médio da London School of Economics, a operação Limite Protetor e a invasão por terra da Faixa de Gaza deram ao Hamas uma oportunidade de lutar, o que trouxe um renovado sopro de vida ao grupo e levou a uma maior cobertura da mídia e apoio popular no mundo árabe.

"Para parar agora, o Hamas tem de garantir concessões tangíveis do governo israelense e do Egito. Esta seria uma vitória política, se não militar, mas tão boa quanto", escreveu ela, por e-mail.

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