Eleição na Cisjordânia tenta estreitar distância da democracia palestina

Os palestinos votaram em eleições na Cisjordânia ocupada por Israel pela primeira vez em seis anos neste sábado, mas a escolha limitada de candidatos colocou-os fora do passo das revoluções democráticas no resto do mundo árabe.

NOAH BROWNING, Reuters

20 de outubro de 2012 | 18h24

Os resultados das urnas locais devem reafirmar o partido Fatah, apoiado pelo Ocidente e de maioria secular, que administra um governo de facto em fatias de terra não policiadas por Israel, frente a um boicote de seu arquirrival islamista, o Hamas.

Enquanto levantes fizeram governos árabes do Marrocos ao Egito acomodarem partidos islamistas há muito tempo suprimidos, o governo de um único partido na Cisjordânia persiste com a rixa do Fatah com o Hamas, mais militante e anti-Israel, que vem governando a Faixa de Gaza desde que os dois grupos entraram em confronto em 2007.

"Não reconhecemos a legitimidade dessas eleições e pedimos que elas sejam interrompidas a fim de proteger o povo palestino e proteger a sua unidade", disse o primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniyeh.

Haniyeh, que assumiu o cargo quando o Hamas ganhou uma surpreendente maioria na eleição parlamentar em 2006 - um resultado anulado pela guerra civil que se seguiu um ano depois - condenou a última votação como "eleições unilaterais removidas de um consenso nacional".

O Fatah finalmente conseguiu encontrar um tempo oportuno para as eleições locais, repetidamente adiadas. O partido superou o Hamas nas votações universitárias em toda a Cisjordânia no início deste ano. Pesquisas de opinião mostram que o apoio para o grupo islamista enfraqueceu desde que ele começou a penosa tarefa de governar a empobrecida e lotada Gaza.

Sem a participação de Gaza na votação de sábado e com a maioria dos moradores da Cisjordânia morando em regiões onde assembleias locais governam sem contestação, a eleição foi menos significativa do que nos anos anteriores.

Mas fissuras dentro do Fatah provocam algum suspense. contagem final de votos deve sair até terça-feira. Segundo a Comissão Eleitoral Central Palestina, cerca de 54 por cento do meio milhão de eleitores que podem votar participaram - bem menos do que os 70 por cento previstos pelo governo da Cisjordânia.

Refletindo o golpe do pedido de boicote do Hamas, o comparecimento em Hebron, um bastião político islamista, foi de apenas 33,7 por cento.

O clima nos distritos eleitorais eficazes e bem policiados em escolas e prédios públicos em toda a Cisjordânia foi de desânimo. Os palestinos expressavam melancolia por suas divisões e pela permanência da ocupação israelense, que já dura 45 anos. "Soube que o bloco Fatah era formado por boas pessoas, então votei neles", disse Amani, de 29 anos, que não quis dar o sobrenome, secando com um pano seu dedo indicador manchado com a tinta roxa dos locais de votação.

"Acho que no fim todos os partidos têm seus próprios interesses políticos e financeiros em mente. Mas é meu dever votar, para que eu possa dizer que fiz a minha parte", ela falou.

CEDO PARA A DEMOCRACIA

O presidente palestino e chefe do Fatah, Mahmoud Abbas, enfatizou um legado de democracia enquanto votava no centro de Ramallah, a sede de seu governo. "Esperamos ser vistos por nossos irmãos em Gaza e em toda parte no mundo árabe como aqueles que primeiro embarcaram na democracia, e continuaremos nesse caminho e esperamos que todos nos sigam", falou aos jornalistas.

Os palestinos tiveram suas primeiras eleições parlamentares em 1995, algo raro entre os países árabes na época e um passo positivo depois dos acordos interinos de paz de Oslo com Israel no início daquela década.

Mas a paz permanente se mostrou elusiva - ilusória, dizem muitos palestinos - e grande parte da liderança da Cisjordânia é formada por autoridades veteranas do auge de Oslo.

A Autoridade Palestina de Abbas enfrenta desafios cada vez maiores a sua legitimidade. A dependência da ajuda econômica externa abriu uma crise financeira que explodiu em protestos de rua em cidades por toda a Cisjordânia no mês passado.

Anos de aprisionamento e marginalização de ativistas do Hamas na Cisjordânia aprofundaram o quase monopólio do Fatah no poder. Uma campanha agressiva para acabar com autoridades de segurança insubordinadas e corruptas nos quadros do Fatah este ano estreitou ainda mais o círculo interno da facção.

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