Enriquecimento de urânio pelo Irã não compromete acordo, diz Amorim

País afirmou que continuará enriquecendo urânio a 20%, mesmo com acordo firmado com Brasil e Turquia

www.estadão.com.br,

17 Maio 2010 | 19h58

MADRI- O ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, negou nesta segunda-feira, 17, que o acordo nuclear firmado com o Irã para a troca de urânio fique comprometido pela decisão de Teerã de continuar enriquecendo urânio a 20%, segundo a agência de notícias AFP.

 

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O plano prevê que o Irã envie à Turquia 1200 kg de seu urânio levemente enriquecido (a 3,5%) para ser trocado em um prazo máximo de um ano por 120 kg de combustível altamente enriquecido (a 20%), necessário para o reator de pesquisas médicas de Teerã.

 

Um porta-voz iraniano afirmou que seu país continuará enriquecendo urânio a 20% "em seu território", o que coloca em xeque o objetivo do país de certificar que seu programa nuclear tem objetivos puramente civis.

 

Segundo Amorim, essa declaração "não foi um balde de água fria", e poderia estar destinada a acalmar os setores iranianos mais duros. "Na realidade, cada um tem seu público interno", disse o ministro em uma teleconferência com jornalistas da base aérea de Torrejón, em Madri, antes de partir para o Brasil.

 

Uma vez criada a confiança, "haverá condições de discutir esse assunto (o enriquecimento a 20%)", afirmou o chefe da diplomacia brasileira. Amorim acrescentou que até agora, no entanto, o Irã não conseguiu enriquecer uma "quantidade significativa" de urânio a 20%.

 

Amorim reiterou que tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ele mantiveram durante a viagem ao Irã contínuas discussões com líderes de todo o mundo, para explicar o acordo que, se aplicado, frearia as sanções preconizadas pelas potências ocidentais contra o Irã.

 

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Acordo

 

Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, além do primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan, fecharam hoje o acordo para que o urânio iraniano levemente enriquecido seja enviado ao território turco e, em troca, o país receba o produto enriquecido a 20%.

 

Pelo acordo, o urânio enriquecido a 20% será remetido no prazo de um ano. Nesse período, haverá supervisão de inspetores turcos e iranianos.

O acordo foi assinado por Lula, Ahmadinejad e Erdogan durante reuniões paralelas do G15 (grupo que reúne 18 países não alinhados) em Teerã. Para as autoridades, o acordo encerra o impasse envolvendo o programa nuclear iraniano.

 

O acordo é parecido com a proposta formulada pelo grupo 5+1 (os cinco países com assentos permanentes no Conselho de Segurança mais a Alemanha) em outubro passado e permitirá o envio do urânio iraniano para a Turquia, aonde ficará armazenado até que o país persa receba no prazo de um ano 120 quilogramas de urânio enriquecido a 20 por cento.

 

AIEA

 

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) pediu nesta segunda ao Irã que confirme por escrito o acordo sobre a troca de parte de seu urânio levemente enriquecido por combustível no exterior.

 

"A AIEA recebeu o texto da declaração comum do Irã, Turquia e Brasil firmada hoje em Teerã", declarou a porta-voz da organização, Gill Tudor. "Na linha do que se expôs lá, esperamos agora do Irã uma notificação escrita que  indique que está de acordo com as disposições mencionadas na declaração", indicou.

 

Sanções

 

Diplomatas ocidentais próximos à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), braço das Nações Unidas, disseram que o acordo de troca de combustível nuclear assinado nesta segunda-feira, 17, pelos ministros de relações exteriores do Irã, Turquia e Brasil não elimina a perspectiva de aplicação de novas sanções contra o Irã, embora torne a adoção de tais medidas mais difícil.

 

O Irã já sofreu três rodadas de sanções das Nações Unidas por se recusar a suspender o enriquecimento de urânio, que o Ocidente teme que se converta em um programa de desenvolvimento de armas nucleares. Teerã insiste prosseguir com o enriquecimento, mesmo após a assinatura do acordo de troca de combustível.

 

A AIEA tenta atrair o Irã desde outubro para assinar um acordo com os EUA, a França e a Rússia, a fim de que o país envie seu urânio pouco enriquecido para o exterior e receba em troca combustível para o reator de pesquisa. Mas o Irã tem evitado o acordo, insistindo querer manter o urânio em seu próprio território para troca simultânea de combustível ao reator.

 

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