Entenda as divisões e a crise política no Líbano

País está sem presidente desde novembro de 2007; situação desperta temores de guerra civil

Agências internacionais,

09 de maio de 2008 | 09h54

O Líbano atualmente é formado por uma população de 60% de muçulmanos e 40% de cristãos. O país tem 18 grupos religiosos reconhecidos oficialmente, e a divisão de poder entre eles sempre foi um jogo complicado. Os muçulmanos libaneses tendem a olhar para o Oriente em busca de apoio de parte de outros Estados árabes e do Irã. Os cristãos tendem a olhar para o Ocidente, para a Europa e os Estados Unidos.   Veja também: Advogado brasileiro no Líbano relata o clima e tensão no país Mapa da divisão do Líbano   O governo do país está fortemente dividido em facções anti-Síria e pró-síria. O primeiro grupo é uma frágil aliança entre sunitas, cristãos e drusos e tem o apoio dos Estados Unidos. O segundo é essencialmente um agrupamento de xiitas dominado pelo Hezbollah, com o apoio da Síria e do Irã.   Os embates políticos entre esses dois grupos chegaram ao ápice no final de 2007, quando o Parlamento do país não conseguiu chegar a um consenso sobre o nome que deveria ocupar a presidência do país. O processo paralisou a política libanesa e tem aprofundado ainda mais as divisões. O Líbano permanece sem um presidente.   As divisões políticas no Líbano refletem a complexidade religiosa do país. O Parlamento tem de ser metade cristão (a maioria maronita, mas também ortodoxos, armênios, assírios, católicos, protestantes, melquitas, entre outros) e metade muçulmano (sunitas, xiitas e drusos). O presidente do Parlamento sempre é xiita. O premiê, sunita. O presidente, cristão-maronita.   A proximidade com Israel - e a presença de um grande número de refugiados palestinos em seu território - faz com que o Líbano também esteja intimamente ligado à disputa árabe-israelense.   Crise política   Para entender esse cenário é preciso recuar a setembro de 2004: os deputados deveriam ter eleito um sucessor para o presidente Emile Lahoud. Na época, o Líbano era ocupado por 40 mil militares sírios e as ordens partiam de Damasco. Os principais opositores de Bashar Assad na época estavam no exílio ou na prisão. Como não havia um candidato que se moldasse ao que queria o regime sírio, a saída foi prorrogar o mandato de Lahoud, que terminaria em novembro daquele ano, após seis anos no cargo. A medida foi aprovada no Parlamento. Mas um grupo de parlamentares, liderados pelo então premiê Rafic Hariri, votou contra. Depois de anos, a Síria era desafiada abertamente e pela figura política mais forte do país. Hariri deixou a chefia do governo após a prorrogação do mandato do presidente.   Bilionário, o ex-premiê fizera fortuna na Arábia Saudita. De volta ao Líbano, Hariri entrou para a política após o fim da guerra civil em 1990. Foi premiê por duas vezes, entre 1992 e 1998 e, depois, de 2000 a 2004, vivendo uma relação de amor e ódio com a Síria. Mas sem nunca ser visto como um líder anti-Síria. Com os sírios desafiados, vozes em Beirute começaram a pedir a desocupação do Líbano, e o fim do mandato de Lahoud. Em 14 de fevereiro de 2005, quando voltava do Parlamento no centro de Beirute, reconstruído por ele, Hariri foi morto na explosão de um carro-bomba.   A morte levou à Revolução dos Cedros, com a retirada síria e centenas de milhares de libaneses nas ruas por vários dias. Os dois principais líderes cristãos, Michel Aoun e Samir Gaegea, voltaram à cena política. O primeiro retornou do exílio e o segundo saiu de um calabouço no subsolo de um ministério libanês após 11 anos. Dois nomes fortes, na época, para a presidência. Mas antes foram convocadas eleições parlamentares. Uma coalizão que incluía o 14 de Março e até mesmo o Hezbollah foi eleita com um governo de união nacional, sob o comando do premie Fuad Siniora. Lahoud permaneceu no cargo, com apoio do Hezbollah e de figuras ligadas à Síria.   Após a ofensiva de Israel, em 2006, tudo mudou. O Hezbollah, já separado do 14 de Março e favorável a Aoun, passou a exigir mais poder. A 14 de Março rejeitou, e o Hezbollah (com seus aliados) deixou o governo.   Os recentes combates em Beirute começaram minutos depois de o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, aparecer na TV acusando o governo libanês de declarar guerra ao seu movimento - criado para resistir a Israel. Ele disse que enquanto o governo não revogar a decisão de fechar a rede de comunicação do Hezbollah, a crise vai continuar.   O governo até agora tem se recusado a voltar atrás, mas o líder sunita Saad Hariri disse que a reação do Hezbollah foi fruto de um "mal-entendido" e ofereceu a realização imediata de negociações para resolver a situação. Ele fez um apelo a Nasrallah, pedindo que ele aceitasse a oferta para "salvar o Líbano do inferno". Mas o canal de TV do Hezbollah disse que a oferta foi rejeitada e que a única solução aceitável seria o recuo do governo.   O fato é que, com os combates se espalhando pelas ruas da capital, muitos temem estar presenciando o início de uma nova guerra civil no país. O Exército libanês alertou que sua própria unidade poderia estar em risco, caso não haja um entendimento entre as partes envolvidas na crise. Para muitos, a unidade do Exército é a única esperança de manter o país unido.   Durante os 15 anos da guerra civil que começou em 1975, o Exército se dividiu entre os lados envolvidos. Essa nova crise é o ápice de uma série de episódios tensos que vinham se escalando nos últimos 18 meses - e que foram contidos graças à cooperação entre a Arábia Saudita e o Irã. Mas as relações entre os dois países parecem estar passando por um momento delicado, e até agora não houve sinais de uma eventual intervenção deles para acalmar a situação no Líbano.     (Com Gustavo Chacra, de O Estado de S. Paulo, e BBC Brasil)

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