Estratégia do Hamas levou ao fim do cessar-fogo em Gaza

Retorno do grupo contra Israel faz parte de lógica para aparecer como principal resistência dos palestinos

Stephen Farrell, The New York Times

30 de dezembro de 2008 | 18h48

Nas paredes do escritório do governo israelense em Jerusalém estão colados post-it amarelos um sobre o outro, com o número 10.048 escrito no mais alto deles. Este é o número de foguetes palestinos e morteiros lançados contra Israel da Faixa de Gaza desde 2001. O número está desatualizado, e outros papéis de recados serão colocados acima deles.   Veja também: 1º NA WEB: Não dá para sair na rua, diz brasileira  Ministro da Defesa de Israel considera trégua de 48 horas Em Curitiba, palestino não pode voltar para casa  Lula: ONU não tem coragem para pôr paz em Gaza  Egito recusa abertura da fronteira com a Faixa de Gaza Israel rejeita trégua e diz que esta é 'só a 1ª fase' UE pede a Israel e Hamas que suspendam ataques   Lapouge: Israel quer restabelecer orgulho militar   Sete mil se alistam no Irã para atentados suicidas contra Israel Conheça a história do conflito entre Israel e palestinos Veja imagens de Gaza após os ataques      Para Israel, a contagem incentivou um debate interno sobre como reagir contra a ameaça do mísseis caseiros do Hamas e de outras facções palestinas armadas. Para o Hamas, a grande existência desse número em um escritório israelense é uma conquista. Para qualquer um que vê as colunas de fumaça nos céus de Gaza nos últimos dias, o Hamas domina o noticiário da televisão e as manchetes dos jornais. Não é apenas a publicidade, mas o status em que o grupo transformou-se no principal movimento de resistência palestina. Seu rival secular, o Fatah, está instalado na linha secundária, marginal da violência que atinge Gaza, de onde foi expulso pelo Hamas no meio de 2007.   As questões permanecem: por que o Hamas encerrou o cessar-fogo de seis meses no dia 19 de dezembro? Eles querem/podem lançar ataques suicidas dentro de Israel em retaliação? E a devastação fará com que os palestinos entrem na linha atrás do Hamas, assim como confiança no grupo no passado, ou perderão apoio enquanto os cidadãos contam os custos da escalada de violência em sangue e destruição?   Mesmo sabendo que a retaliação era certa, o Hamas encerrou o cessar-fogo em parte por conta da antiquada disciplina e persistência: por anos, pregaram aos palestinos que rejeitassem a crença de que a negociação do Fatah com Israel chegaria a lugar nenhum. O caminho do Hamas era pela luta armada, e argumentou ano após ano que este era o único meio. E parece que o Hamas voltou a adotar sua lógica própria para o cessar-fogo: o líder supremo do grupo, Khaled Meshal, disse em 27 de dezembro que a trégua rendeu poucos frutos. Se não há benefícios específicos - como a libertação de prisioneiros ou o fim dos bloqueios contra Gaza - então a opção, novamente, é voltar com o uso da violência. Eles podem ter calculado que os foguetes - 60 em um único dia - restaurariam o status entre os palestinos como campeões da "resistência" contra o inimigo sionista, cujos soldados e assentados não estão mais na Faixa de Gaza ocupada pelo Hamas.   A maior questão que permanece é se o Hamas esperava por uma ofensiva israelense que destruiu tantos edifícios e deixou Gaza revirada. O resultado, por enquanto, é distante do real porque nenhum lado expôs seu arsenal completo disponível. Alguns em Gaza acreditam que o Hamas quer que os soldados israelenses entrem na região, porque tiveram 18 meses para contrabandear armas pelos túneis desde que tomou o controle do território palestino. Nos últimos anos, depois da retirada de Israel de Gaza em 2005 e o início da construção da barreira na Cisjordânia, ficou mais difícil atacar israelenses.   Israel, de qualquer forma, está ciente dos riscos e não agirá de forma flexível em um retorno militar em larga escala em Gaza. O ponto crucial é se os palestinos culparão Israel por atacá-los, como o Hamas espera, ou o Hamas por provocar a ofensiva, assim como esperam o Fatah e os aliados do Ocidente.

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