EUA erguem muro para isolar rebeldes em Sadr City

Sob a supervisão de soldados americanos, trabalhadores começam a construir barreira

Joao Silva, do The New York Times,

18 de abril de 2008 | 15h21

Na tentativa de obstruir a infiltração de insurgentes, as forças americanas começaram a construir um muro de concreto que partirá Sadr City, a populosa favela xiita nos arredores de Bagdá. A construção, que começou na noite de terça-feira, 15, pretende tornar o lado sul, próximo da Zona Verde - onde ficam instaladas as instituições do governo e diplomáticas na capital -, em uma região protegida, sob a segurança de tropas americanas e iraquianas, onde a administração iraquiana pode instalar os esforços para a reconstrução do país. Veja também:EUA iniciam libertação de milhares de detidos no Iraque "Você não pode reparar nada que está destruído até que se estabilize a segurança", disse o comandante americano no Iraque, o coronel Dan Barnett. "Um muro que isola aqueles que querem continuar a atacar o Exército iraquiano e as forças da coalizão pode criar condições seguras para a reconstrução". Na noite de quarta-feira, grandes guindastes levantavam pesados blocos de concreto. As barreiras foram implantadas por toda a rua Al Quds, a maior rua e que separa os distritos de Tharwa e Jamilla, ao sul, e o coração de Sadr City ao norte. A avenida estava quieta, exceto pelo barulho dos guindastes e dos blocos de concreto atingindo o chão. Empreiteiros operavam as máquinas, mas soldados americanos transportavam os blocos em caminhões e os levavam para o local em que seria utilizados. A equipe responsável pela construção da barreira foi protegida por tanques, veículos de guerra e helicópteros. Enquanto os funcionários trabalhavam em silêncio, um dos tanques abriu fogo contra um pequeno grupo de militantes. Um helicóptero apache atirou um míssil contra outro grupo insurgente equipado com foguetes, novamente interrompendo o silêncio com o barulho das explosões. Uma forte fumaça era visível na favela, até mesmo para quem observasse com equipamento de visão noturna. Barreiras de concreto estão sendo colocadas em outras áreas de Bagdá. Enquanto os muros são erguidos em outras vizinhanças, alguns moradores afirmaram que temem o isolamento. Porém, as muralhas se mostraram como uma ferramenta eficiente no combate aos insurgentes. Forças americanas e iraquianas afirmam que enfrentam grupos apoiados pelo Irã e milícias ligadas ao clérigo xiita Moqtada al-Sadr, o religioso antiamericano líder do Exército Mahdi. O primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, recentemente promoveu uma ofensiva em Basra para combater os militantes xiitas, que aumentou o número de ataques na Zona Verde. Muitos dos insurgentes xiitas que os soldados americanos e iraquianos combatem no distrito de Tharwa, em Sadr City, se infiltraram pelo norte da favela. A avenida Al Quds se transformou em uma porosa demarcação entre a área protegida pelos militares, ao sul, e a região controlada pela milícia, ao norte. A avenida é repleta de numerosas bombas, que equipes americanas especializadas com veículos preparados removem. As milícias ainda empilharam pneus incendiados para prejudicar a visão infravermelha do Exército dos EUA. Com a tempestade de areia que atingiu a capital nesta semana, atrapalhando o reconhecimento e o patrulhamento das áreas e impedido que os helicópteros decolem, o trabalho de construção do muro foi suspenso na quinta, 18, mas os militares pretendem concluir os trabalhos assim que o tempo permitir. A tempestade de pó, que tornou o céu escuro, ajudou no avanço das milícias. Calculando que ela prejudicaria os trabalhos de patrulha dos militares, os insurgentes tomaram posições no Exército iraquiano na região norte da favela. Os soldados, que estavam a centenas de metros dos postos americanos, afirmaram que correram desesperadamente ao ficarem sem munição. Comandantes americanos estão ansiosos para evitar os incidentes como a derrota na noite de quinta-feira, quando militares iraquianos abandonaram suas posições no fronte com forças dos EUA. A área foi ocupada por uma unidade diferente das tropas do Iraque no dia seguinte, mas o episódio deu aos insurgentes o controle temporário de um trecho da avenida e uma grande oportunidade para instalar novas bombas. O maior esforço dos militantes na quinta foi focado em expulsar forças iraquianas e americanas de uma delegacia. Enquanto a luta se intensificou e após relatos de que os rebeldes estariam próximos, o coronel Barnett moveu tanques para o local para apoiar as forças no local. Veículos do Exército iraquiano conseguiram chegar ao prédio antes dos americanos e abasteceram com munição as tropas em Sadr City. Enquanto o Exército americano espera transformar o sul de Sadr City em um enclave protegido para que o processo de reconstrução seja possível, não há indicações de que o governo iraquiano tenha  promovido grandes esforços nos últimos dias. Durante uma patrulha conduzida por soldados americanos na quinta, os moradores reclamaram dos problemas no abastecimento de água, de energia elétrica e das pilhas de lixo. Os americanos tentarão persuadir os iraquianos de que a administração deve manter a infra-estrutura e restaurar o fornecimento dos serviços. "Nós não estamos impedido que os serviços do governo cheguem até aqui", disse o comandante Matthew Schardt para uma das mulheres que se queixaram dos problemas. "Nós queremos que chegue até aqui". O Exército americano planeja contratar 200 moradores de Sadr city para a limpeza da região por um período de 75 dias. Até então, apenas 90 foram empregados, segundo Barnett. O programa, porém, parece estar em segundo plano.

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