Ex-combatente do Hezbollah revela treinamento secreto

Jovem conta como foi convocado por grupo xiita libanês; "tínhamos algo em comum: o ódio por Israel "

Tariq Saleh, BBC

14 de agosto de 2007 | 09h13

Um ano após a guerra entre Israel e Hezbollah, a BBC Brasil conversou com um ex-soldado do grupo xiita libanês que desistiu de ser combatente. Khalil Akl, 23 anos, é um jovem xiita de Kfarmechki, no sul do Vale do Bekaa. Seu vilarejo fica numa colina, perto do lago Qaraaoun, de onde pode-se ver Israel. Em 2000, ele tinha 16 anos quando o Exército israelense encerrou os 22 anos de ocupação do sul do Líbano. Ele ouvia as histórias de martírio, heroísmo e sacrifício de guerrilheiros contra o inimigo. Decidiu, com outros amigos, que queria ser um soldado da milícia xiita. mas o processo de escolha de Akl e de outros jovens começou muito antes. "Quando eu tinha 10 anos, participava de acampamentos e atividades de recreação com outros meninos de minha idade. Aprendíamos a rezar, sobre como levar uma vida disciplinada e sem abusos", disse ele. Segundo Akl, à medida que os garotos iam ficando mais velhos, líderes locais observavam os mais interessados, disciplinados e espertos. Reuniões eram feitas, e as lições passaram a ser sobre política e religião. "Todos nós também tínhamos algo em comum - o ódio por Israel e o sofrimento que nos fez passar durante todos os anos de ocupação." Segundo uma fonte do Hezbollah, que pediu para ser identificada apenas como Jihad, o processo para selecionar os futuros combatentes começa mesmo desde cedo. "Os líderes locais do partido ficam de olho nos garotos mais ativos e inteligentes. Cada vila manda uma cota de meninos para participar de atividades variadas. Primeiro, nós queremos ver se eles estarão prontos para outras etapas e se têm condições de prosseguir", disse Jihad. Segundo Jihad, cada jovem escolhe depois se quer mesmo continuar. "Se o rapaz quer apenas diversão, ele está fora. Nós queremos pessoas que acreditam fielmente na causa." Mas para Akl, o desejo de ser militante não começou assim. "Nós víamos alguns videos nas reuniões de alguns treinos e combates contra Israel. Queríamos ser soldados para nos sentirmos heróis e importantes." Logo, no entanto, seus objetivos ficaram mais voltados para a causa. Akl disse que a sua região sempre foi admiradora do Hezbollah, pois o grupo investia na infra-estrutura, construía escolas, estradas e ajudava famílias mais necessitadas. "Nunca ouvíamos falar do governo. Eles nunca perguntaram se precisávamos de algo. Por isso, decidi que queria retribuir ao partido com minha dedicação", disse. "Minha família não sabia que eu estava envolvido em atividades mais profundas com o Hezbollah, apenas reuniões de religião e política." O pai, segundo ele, ficou preocupado quando o jovem contou que iria para o campo e receber um ''pequeno'' treinamento. "Só não conte nada para a mamãe. Diga que fui apenas para um acampamento por algumas semanas", disse Akl ao pai, na época. Jihad afirmou que os campos de treinamento do Hezbollah ficam no Líbano, e não no Irã. "Somente soldados profissionais, as tropas de elite, vão para o Irã. Os combatentes reservistas treinam no Líbano, e só depois de anos eles podem ganhar a chance e a honra de receber treinamento no Irã", disse. Akl disse que a viagem foi feita durante a noite, primeiramente de carro e depois de ônibus. Todos foram revistados, pois ninguém pode transportar celular ou câmeras fotográficas. Ele disse que todos sabiam que estavam ainda no Líbano, devido à paisagem. "Havia gente com idades entre 20 e 30 anos. Eu e outro colega éramos os mais novos, já perto de completarmos 17 anos." "Logo quando chegamos, durante a madrugada, nos deram uniforme e equipamento. Nos mandaram caminhar pela floresta e ficar lá por horas, dormindo ao ar livre", disse. A vida no campo, de acordo com Akl, era dura, com tarefas que exigiam o máximo esforço físico e psicológico de cada recruta. As aulas iam desde táticas de combate, armas, sobrevivência a primeiros socorros. Nos momentos de descanso, o tempo era dedicado às rezas e leituras do Corão. Segundo Akl, os recrutas eram submetidos a duras sessões de combate, em que seguidamente ficavam com marcas e cortes pelo corpo. Os instrutores atiravam, disse ele, com munição de verdade em simulações de batalhas. Em alguns dias, segundo Akl, eles eram obrigados a caminhar por cerca de 30 km, inclusive atravessando a fronteira para a Síria (o sotaque de alguns beduínos que encontravam comprovava que estavam em lado sírio, segundo ele). "Durante a noite, cada grupo dormia em buracos cavados na terra e sempre a mais de 150 metros um do outro, para no caso de um ataque de Israel não pegar todos de uma só vez", disse. "Às vezes conversávamos entre nós sobre como seria depois, de como seríamos recebidos como heróis por nossos amigos." O treinamento durou 45 dias, e alguns começaram a desistir na metade. Akl terminou seu treinamento e voltou para casa. Durante mais dois anos, continuou a ajudar em tarefas de militância. Israel já não ocupava mais o sul do Líbano e, pela primeira vez, ele pôde conhecer lugares que jamais vira em seu próprio país. Sua fé, porém, começara a definhar e já não havia mais a certeza de que queria continuar sendo um combatente. Muitos guerrilheiros do Hezbollah estudavam ao mesmo tempo, mas Akl queria trilhar apenas um dos caminhos. "Comecei a me perguntar o que de fato queria para mim. Decidi apenas estudar e trabalhar, ter um futuro diferente. Além disso, não me sentia totalmente religioso, queria ter outro tipo de vida." Líderes locais instruíram o jovem a se apresentar aos superiores e comunicar sua vontade de sair do partido. Mas ele, ao contrário, rumou para Beirute para realizar os exames de admissão na universidade. "Eu era grato pelo que o partido fez por mim, mas nos últimos anos eles haviam parado de dar atenção ao meu vilarejo e à minha região. Portanto, me questionei se eu deveria continuar lutando por eles", disse. O jovem, entretanto, disse que sua fé pela causa não diminuiu. "Continuo ajudando de outras maneiras, com tarefas sociais. Mas se invadissem meu país e me chamassem para lutar, eu iria", afirmou. Hoje, Akl só visita sua pequena cidade nos finais de semana, pois estuda Tecnologia de Informação em Beirute, onde fez novos amigos e sai para se divertir na noite. Ele sonha em deixar o país para buscar um futuro melhor. O que não mudou, segundo ele, é seu ódio por Israel.   BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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