REUTERS/Pierre Albouy
REUTERS/Pierre Albouy

Extremistas na Síria se fortaleceram graças ao apoio externo, denuncia brasileiro

Presidente da Comissão de Inquérito da ONU para a Síria, brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro fala sobre a guerra civil no país

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

17 Março 2015 | 07h43

GENEBRA - Quatro anos depois do início da guerra na Síria e de mais de 200  mil mortos, a realidade é que "não há nenhum vencedor". O alerta é do brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Inquérito da ONU para a Síria. Em entrevista ao Estado, o professor e ex-ministro deixa claro que não existe solução militar para o conflito, denuncia crimes de guerra por todas as partes e alerta que o surgimento de grupos terroristas como o EI aconteceu também graças ao financiamento externo. Eis os principais trechos da entrevista:

Quatro anos depois, existe algum vencedor para essa guerra? 

Não há nenhum vencedor, nem haverá,  assim como não ha nenhuma solução militar para o conflito na Síria. Hoje o país esta praticamente dividido em três partes. Ao norte o chamado grupo terrorista Estado Islâmico, que controla um terço do território, a maioria deserto, algumas cidades e campos petrolíferos, com uma população de 20%. No centro está o o governo Assad, na região de Damasco e seu entorno, controlando 60% da população. E no sul, na região de Daraa , onde está cerca de 20% da população, o governo controla a zona urbana  com apoio do Hezbollah  e de milícias iraquianas. Na zona rural está o remanescente do chamado Exército Livre da Síria, com  alguns grupos não estatais islâmicos de oposição ao governo.

Por que o extremismo encontrou terreno fértil na Síria? 

Evidentemente que quando há um regime politico onde existe uma discriminação efetiva de uma minoria - no caso alauita - contra uma maioria, no caso sunita, não faltaram ressentimentos tribais para serem  facilmente  explorados, especialmente diante do intensificação da repressão brutal  pelo governo  das primeiras mobilizações contra o governo no anos de 2011. Além disso, o insucesso dos grupos rebeldes estimulou muitos grupos e indivíduos a aderirem às organizações e terroristas, com muito recursos ,armamento pesado e maiores sucessos militares . Por outro lado, é importante considerar que os grupos extremistas não cariam do céu. Eles foram estimulados e mesmo financiados, por exemplo, por indivíduos de alguns estados da região.

Existe uma solução hoje sem Assad? 

Creio que seja equivocado personalizar o governo sírio na pessoa do presidente. Ele  é a expressão de um família, de um sistema, de um partido. É  uma falsa disjuntiva, uma solução com ou sem o presidente Assad. A solução para por fim a violência continua a ser a mesma que está em detalhes no chamado memorando de Genebra. Não há outra saída senão uma solução negociada que evidentemente inclui o estado  e a sociedade da Síria e todos os países influentes da região. Seria muito mais eficiente que, em vez de os diversos estados  pretenderem fortalecer militarmente o governo ou os grupos rebeldes, que envidassem  todos os esforços para construir um processo para a um cessar-fogo visando o fim do conflito.

Dentro de um contexto de longo prazo, essa seria a pior guerra que o século XXI já experimentou? 

Não existe um campeonato de guerras. Cada guerra tem sua especificidade, mas todas as guerras são devastadoras e fazem regressar a um mundo sem lei onde a só a força prevalece. Dito isto, precisamos colocar o conflito na Síria dentro de um contexto maior: estima- se que o número de conflitos armados no mundo diminuiu mais de um terço depois do final da guerra fria nos anos 1990. Por volta de 2008, conflitos de alta intensidade, isto é, aqueles com 1000 mortos ou mais havia decrescido em 80%. Evidentemente que dentro dessa tendência, o conflito na Síria, entrando esse mês no seu quinto ano, chama a atenção pelo numero de mortes - dos dois lados ,civis e combatentes. Estima-se em mais de 200  mil mortos, 3 milhões de refugiados, 10 milhões de deslocados internamente e certamente se situa no século atual entre mais graves e mais longas guerras internas em que a população civil foi mais afetada.

Qual o seu impacto para o futuro do Oriente Médio?

O impacto da guerra na Síria é devastador para a segurança da região. Hoje a guerra transbordou para países vizinhos onde partidários dos dois campos - e dos dois grupos terroristas - se enfrentam. Há hoje cerca de três milhões de refugiados. Turquia, Jordânia e Líbano estão os acolhendo com enorme generosidade e eficiência apesar dos impactos na sua economia e na situação social de suas populações.

O sr. investiga violações de direitos humanos há anos em todo o mundo. O que chocou mais nessa guerra na Síria?  

Não costumo levar em conta minha reação pessoal que não tem nenhuma importância. Mas para responder diria que é o total desprezo tanto por parte das forças governamentais e suas forças aliadas, assim como por parte dos grupos não estatais armados - e evidentemente pelos grupos terroristas, pelo direito internacional humanitário, pela proteção da população civil. O uso de bombardeios, seja por aviação que só o governo tem, seja pelos grupos rebeldes com artilharia, foguetes , armamento improvisado  tem sido sistematicamente indiscriminado. Nas áreas populosas, tanto o Estado como os grupos rebeldes tratam alvos militares distintos e grande concentração de civis como um único objetivo militar, o que claramente constitui crime de guerra.

O sr. produziu uma lista de pessoas que teriam cometido crime de guerra. Não seria a hora de divulgar os nomes?

A comissão no seu último relatório chamou mais uma vez a atenção para a inação e o imobilismo da comunidade internacional - em particular o Conselho de Segurança da ONU - em por fim a impunidade que prevalecer no conflito na Síria para todas as violações de direitos humanos, crimes de guerra e crimes contra a humanidade . Julgamos que as vitimas já estão esperando por justiça faz quatro anos e que tendo em conta seu direito a verdade  é que iriamos considerar publicar as listas confidenciais de nomes de perpetradores que temos coletado desde setembro de 2011 até o presente. Entretanto, por enquanto, a comissão ainda não tomou uma decisão a respeito , especialmente porque a divulgação dos nomes deve fazer parte de um processo no qual haja perspectiva de efetivo seguimento pelas instituições jurídicas competentes. Caso contrário, estaríamos apenas aumentando o desanimo e a frustração das vitimas do conflito .

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