Fala de cardeal gera tensão entre Vaticano e Israel

As relações entre o Vaticano e Israel ficaram tensas na quinta-feira, com a forte reação do Estado judeu ao cardeal Renato Martino, assessor do papa Bento 16, que na véspera comparou as atuais condições na Faixa de Gaza às de um "grande campo de concentração". Em um discurso a diplomatas, Bento 16 manifestou-se contra o uso da violência por Israel e pelo grupo islâmico Hamas. Martino, que preside o Conselho de Justiça e Paz do Vaticano, fez na quarta-feira, numa entrevista a um veículo italiano, a mais dura crítica da Santa Sé até agora contra a ofensiva de Israel no território palestino. "Ficamos perplexos em ouvir de um dignitário espiritual palavras tão distantes da realidade e da dignidade", disse à Reuters Yigal Palmor, porta-voz da chancelaria israelense. "O vocabulário da propaganda do Hamas, vindo de um membro do Colégio de Cardeais, é um fenômeno chocante e frustrante". disse ele. Líderes judeus de todo o mundo também criticaram Martino. "Suas declarações são ofensivas e um insulto à memória do Holocausto e dos sobreviventes em todo o mundo", disse Elan Steinberg, vice- presidente da entidade Encontro Americano dos Sobreviventes do Holocausto Judaico e Seus Descendentes. "Ou ele está tentando de forma nefanda disseminar a propaganda anti-israelita, ou não tem a menor ideia das condições mortíferas dentro de um campo de concentração", declarou Stephan Kramer, secretário-geral do Conselho Central dos Judeus da Alemanha, ao diário Handelsblatt. "Essas declarações são inverídicas, distorcem a memória do Holocausto e apenas são usadas contra Israel por organizações terroristas e por negadores do Holocausto", disse o rabino Marvin Hier, decano do Centro Simon Wiesenthal. A polêmica declaração de Martino soma-se à ofensiva militar de Israel em Gaza para lançar uma sombra sobre a visita do papa à Terra Santa, marcada para maio -- e agora posta em dúvida por alguns diplomatas. Em seu discurso anual sobre o "estado do mundo", proferido a diplomatas, o papa pareceu se esforçar para adotar um tom equilibrado. Ele lamentou "o renovado surto de violência provocando imenso dano e sofrimento à população civil" em Gaza e Israel, e conclamou "a rejeição do ódio, dos atos de provocação e do uso de armas". "A violência, venha de onde vier e assuma a forma que assumir, deve ser firmemente condenada." (Reportagem adicional de Erik Kirschbaum, em Berlim)

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