Forças de segurança abrem fogo contra manifestantes em Benghazi, na Líbia

Segundo testemunhas, 15 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas na saída de funeral de manifestantes; ONG já teria registrado 84 mortes

Efe, AP e BBC,

19 de fevereiro de 2011 | 14h07

Caos na Líbia. De acordo com testemunhas, a cidade de Benghazi vive situação de alerta; manifestantes teriam controlado os principais pontos em protesto

Quinze pessoas morreram e dezenas estão feridas depois que as forças de segurança de Moamar Gadafi abriram fogo contra enlutados que saíam de um funeral para manifestantes neste sábado, 19, em Benghazi, dizem testemunhas. 

Grupos líbios de protesto estão nas ruas pelo quinto dia consecutivo. De acordo com Mohamed Sedaka, ativista de direitos humanos, Benghazi se encontrava desde manhã "totalmente sob controle" dos manifestantes contrários ao regime de Gadafi. "Já não há policiais, nem militares em Benghazi. Os manifestantes controlam a cidade agora", afirmou Sedaka.

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Segundo testemunhas, forças do governos também teriam atirado contra manifestantes em Mosrata, terceira cidade da Líbia, localizada há 200 quilômetros de Trípoli, e ferido ao menos oito pessoas, declararam moradores do local à rede de televisão Al-Jazira.

Abderrahman Souihli, professor universitário originário da localidade, afirmou que dezenas de jovens estavam nas ruas para exigir a troca do regime e a saída de Muamar al Gadafi. Forças policiais teriam respondido de forma particularmente violenta. "Vimos oito pessoas atingidas por balas de verdade. Não sei se há mortos, mas é certo que alguns estão gravemente feridos", disse o professor.

De acordo com o veículo eletrônico líbio "Quryna", 24 pessoas morreram desde o início dos protestos em Benghazi. Já a organização Human Rights Watch (HRW) diz que esse número chega a 84.

 

Protestos na Líbia já deixaram 84 mortos, diz ONG

O número de pessoas mortas em três dias de protestos contra o governo da Líbia já chegou a 84, segundo a organização internacional Human Rights Watch, com sede em Nova York.

O principal foco das manifestações contra o líder líbio, Muammar Khadafi, foi a segunda maior cidade do país, Benghazi, onde 35 mortes foram registradas em apenas um hospital.

A mídia estatal advertiu sobre retaliações contra os críticos de Khadafi, que está no poder desde 1969. Serviços de internet e energia elétrica foram cortados em algumas áreas do país após o início dos protestos.

O principal provedor de internet cortou o acesso à rede, de acordo com o jornal Guardian. A rede de TV Al-Jazira também informa que a rede de telefonia celular também não está funcionando por imposição do governo líbio.

As forças de segurança líbias abriram fogo contra manifestantes em Benghazi na sexta-feira quando eles se aproximaram de um local usado pelo coronel Khadafi quando visitava a cidade, localizada a cerca de mil quilômetros da capital, Trípoli. Segundo relatos de órgãos de mídia e a contabilização da Human Rights Watch (HRW), o hospital Al-Jala, na cidade, recebeu os corpos de 35 pessoas mortas pela repressão aos protestos.

 

Corpos ensaguentados

Em um comunicado publicado na internet, a HRW afirmou que houve protestos também em pelo menos outras quatro cidades no leste do país na sexta-feira - Al-Bayda, Ajdabiya, Zawiya e Darnah - mesmo após a morte de alguns manifestantes em protestos nos dias anteriores.

Imagens gravadas em Al-Bayda mostravam corpos ensaguentados em um necrotério e manifestantes ateando fogo a um prédio do governo local e demolindo uma escultura do "livro verde", que representa a ideologia de Khadafi.

Em Darnah, ao leste de Al-Bayda, delegacias de polícia teriam sido desocupadas após os protestos. Um jornal de propriedade de um dos filhos de Khadafi afirmou que manifestantes lincharam dois policiais na cidade.

Um manifestante disse à BBC que soldados estavam mudando de lado em algumas áreas e passaram a apoiar os protestos.

"Os soldados dizem que somos cidadãos deste país e que não podem combater seus cidadãos", disse. "Respeitamos nosso povo, não precisamos lutar contra eles", afirmou.

Não foram registrados até agora grandes protestos contra o governo na capital do país, Trípoli, onde manifestantes pró-Khadafi vêm realizando atos em apoio ao líder.

Mudanças no governo

Em meio à repressão aos protestos, o jornal semi-independente Quryna relatou que o governo faria mudanças em muitos cargos do executivo e descentralizaria e restruturaria o governo. Não havia uma menção aos protestos como catalisadores das mudanças.

O jornal pró-governo Al-Zahf Al-Akhdar havia advertido antes que que as autoridades responderiam "violentamente e contundentemente" aos protestos.

"O poder do povo, a Jamahiryia (termo em árabe para designar o sistema de governo adotado pela Líbia, chamado 'Estado das Massas'), a revolução e o coronel Khadafi são linhas vermelhas, e aqueles que as tentarem cruzar ou chegar próximos dessas linhas são suicidas brincando com fogo", afirmou o jornal.

As manifestações líbias são parte da onda de levantes pró-democracia no mundo árabe e muçulmano, que já derrubou governantes na Tunísia e no Egito e se espalhou por países como Bahrein, Argélia, Iêmen e Irã.

Mas analistas dizem que a situação no país é diferente da situação no Egito ou na Tunísia, porque Khadafi teria as grandes receitas com petróleo para conter os problemas sociais e tem uma alta popularidade em todo o país, apesar de ser menos popular na região de Cyrenaica, onde está Benghazi.

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