Gaddafi rejeita exigências e promete seguir lutando

Muammar Gaddafi conclamou na quinta-feira seus seguidores a continuarem lutando, enquanto os novos governantes líbios se reuniram em Paris com líderes mundiais para discutir a reconstrução do país depois de 42 anos de regime autocrático e seis meses de guerra civil.

SAMIA NAKHOUL E MOHAMMED ABBAS, REUTERS

01 Setembro 2011 | 19h21

"Que seja uma longa batalha. Vamos lutar de lugar em lugar, de cidade em cidade, de vale em vale, de montanha em montanha", disse Gaddafi em discurso transmitido por canais árabes de TV por satélite.

"Se a Líbia arder em chamas, quem será capaz de governá-la? Que queime. Eles não querem governar a Líbia. Eles não conseguem governá-la enquanto estivermos armados. Ainda estamos armados. Vamos lutar em cada vale, em cada rua, em cada oásis, em cada cidade."

Ele acrescentou: "Como podemos nos entregar outra vez? Somos mulheres nos rendendo aos nossos maridos ou o quê?"

O discurso coincide com o aniversário do golpe de Estado, em 1969, que derrubou o rei Idris e levou Gaddafi, então um capitão de 27 anos, ao poder.

Em outra mensagem de áudio, Gaddafi rejeitou as exigências dos novos governantes da Líbia de que suas forças devem se render.

"A Líbia não vai se render e não será colonizada. Vamos combatê-las (as forças inimigas) onde estiverem e queimar a terra sob os pés delas... vocês não encontrarão espaço para dormir ou descansar em nossa terra", ele disse em sua segunda mensagem de áudio do dia, transmitida pelo canal sírio al Rai TV.

"A resistência está crescendo em Trípoli e a cidade será libertada polegada por polegada", afirmou Gaddafi.

PARADEIRO DESCONHECIDO

O paradeiro do líder líbio deposto é desconhecido desde que forças rebeldes entraram em Trípoli, na semana passada. Um comandante militar do Conselho Nacional de Transição (CNT) disse ter recebido informações de que Gaddafi estaria na cidade de Bani Walid, a 150 quilômetros de Trípoli, no deserto.

Segundo Abdel Majid Mlegta, comandante das forças militares em Trípoli, Gaddafi está na companhia de seu filho Saif al Islam e do seu chefe de inteligência, Abdullah al Senussi, tramando uma reação. Os três são acusados pelo Tribunal Penal Internacional de terem cometido crimes contra a humanidade.

De acordo com outra versão, publicada por um jornal argelino, Gaddafi estaria na cidade fronteiriça de Ghadamis e teria tentado ligar para o presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, pedindo refúgio. Bouteflika não atendeu à ligação, embora Argel tenha dado guarida à mulher de Gaddafi e a três filhos dele nesta semana.

Enquanto isso, o CNT, tentando eliminar as forças pró-Gaddafi, prorrogou em uma semana o ultimato que venceria no sábado para que a cidade de Sirte, terra natal do ex-governante, se renda. O mesmo se aplica a outras localidades onde também há resistência de seguidores de Gaddafi.

Segundo Mohammed Zawai, porta-voz do CNT em Benghazi (leste), a prorrogação "significa que há progressos nas negociações" pela rendição.

"Não temos pressa de entrar em Sirte. Ela não tem importância econômica, e não vamos sofrer baixas por causa dela. Podemos cortar os mantimentos e esperar, até mais do que uma semana."

O CNT diz que a guerra só vai acabar quando Gaddafi for capturado ou morto, mas independentemente disso o novo governo começa a preparar a reconstrução.

Na conferência dos "Amigos da Líbia" em Paris, potências estrangeiras e entidades internacionais discutiram forma de dar apoio econômico e político, mas nos bastidores também há uma competição por espaço nas oportunidades econômicas na nova Líbia, país com grandes reservas de gás e petróleo.

Antes do início da conferência, a Rússia - que havia criticado a ação militar da Otan em apoio aos rebeldes líbios - reconheceu o CNT como novo governo do país.

Alguns líbios sugerem que países que relutaram em apoiar os rebeldes, caso de Rússia, China e Brasil, deveriam ser preteridos na concessão de contratos, e que Grã-Bretanha, França, EUA e Catar, apoiadores de primeira hora da oposição a Gaddafi, deveriam ser privilegiados.

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