Gaddafi sugere cessar-fogo, mas se recusa a deixar o poder

O líder da Líbia, Muammar Gaddafi, disse neste sábado que está pronto para aceitar um cessar-fogo e negociar se a Otan --Organização do Tratado do Atlântico Norte-- "parar seus aviões", mas se recusou a entregar o poder mesmo sob exigências dos rebeldes do país e das potências ocidentais.

LIN NOUEIHED, REUTERS

30 de abril de 2011 | 10h15

Os insurgentes rejeitaram a oferta de Gaddafi, dizendo que ele perdeu credibilidade e que o prazo para um acordo já passou.

Semanas de ataques aéreos feitos pelas potências ocidentais não conseguiram derrubar o líder líbio, mas causaram um impasse em uma guerra em que anteriormente Gaddafi parecia estar ganhando. Mas agora as forças do governo estão cercadas no leste do país e ao redor da cidade sitiada de Misrata, enquanto lutam pelo controle das montanhas do oeste.

Aparentemente, nenhum dos lados tem poder para tomar a dianteira, e Gaddafi passou a usar um tom mais conciliatório em um discurso de 80 minutos de duração na televisão, nas primeiras horas deste sábado.

"(A Líbia) está pronta até agora para entrar em um cessar-fogo", afirmou, falando de trás de uma escrivaninha e auxiliado por pilhas de papel que pareciam ser notas escritas a mão.

Fomos os primeiros a querer um cessar-fogo e fomos os primeiros a aceitar um cessar-fogo... mas os ataques cruzados da Otan não acabaram," afirmou. "O portão da paz está aberto."

Gaddafi negou que tenha feito ataques em massa contra civis e desafiou a Otan a encontrar pelo menos mil pessoas que tenham sido mortas nos conflitos.

"Não os atacamos além dos oceanos. porque eles estão nos atacando?", perguntou Gaddafi, referindo-se aos países europeus envolvidos nos ataques aéreos. "Deixem-nos negociar com vocês, os países que nos atacaram. Deixem-nos negociar."

Mas, enquanto ele falava, aviões da Otan atingiam três alvos próximos ao edifício da emissora de televisão em Trípoli, no que a imprensa estatal chamou de uma tentativa de matar Gaddafi, que comanda a Líbia há 41 anos.

Os ataques aéreos deixaram uma grande cratera do lado de fora do escritório do procurador-geral, mas não danificaram o edifício. Eles também atingiram dois prédios do governo localizados em uma região com arquitetura colonial. Não está claro se houve vítimas por causa dos bombardeios.

Abdel Hafiz Ghoga, porta-voz do conselho transicional rebelde, rejeitou o gesto de Gaddafi, dizendo que o líder tinha oferecido repetidas tréguas apenas para continuar violando os direitos humanos.

"O regime de Gaddafi perdeu toda a credibilidade," afirmou Ghoga em comunicado. "O prazo para um acordo passou. O povo da Líbia não pode possivelmente imaginar ou aceitar uma Líbia na qual o regime de Gaddafi tenha qualquer papel."

O porta-voz militar dos rebeldes, coronel Ahmed Bani, também disse que Gaddafi estava "jogando sujo". "Ele não fala honestamente. Não acreditamos nele e não confiamos nele", disse.

Ofertas anteriores para um cessar-fogo foram recusadas pela Otan, enquanto as forças do governo da Líbia continuavam lutando.

Parece que isso continuará acontecendo, e Gaddafi indicou querer que ambos os lados parem os conflitos imediatamente, dizendo que "um cessar-fogo não pode vir de apenas um lado."

O líder também se recusou a deixar o país ou o poder, as principais exigências dos rebeldes, dos Estados Unidos, da França e da Grã-Bretanha, que estão liderando a campanha aérea da Otan.

"Não vou deixar o país", afirmou Gaddafi. "Ninguém pode me forçar a deixar meu país e ninguém pode me dizer para não lutar pelo meu país."

As forças de Gaddafi não dão sinais de que vão desistir das batalhas e afirmaram ter capturado o porto de Misrata na sexta-feira, o último grande reduto rebelde no oeste da Líbia, mas a Otan afirmou que não havia evidências desse fato.

O governo da Líbia ameaçou atacar quaisquer navios que se aproximarem de Misrata, potencialmente privando insurgentes de obter conexão de fora com a cidade.

A Otan afirmou que as forças de Gaddafi colocaram minas perto do porto, que está sob cerco há semanas, e forçaram uma interrupção temporária na chegada de ajuda humanitária.

"As forças da Otan estão agora ativamente comprometidas em combater a ameaça das minas para assegurar que a entrada de ajuda humanitária continue", afirmou a aliança.

Mais a oeste, a guerra respingou na Tunísia quando as forças de Gaddafi atacaram um enclave rebelde na fronteira. O Exército líbio bombardeou a cidade tunisiana de Dehiba, danificando edifícios e ferindo pelo menos uma pessoa, disseram testemunhas. Elas afirmaram que soldados líbios entraram na cidade em um caminhão, perseguindo rebeldes.

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