Governo da Noruega consegue libertação de esposa de advogado

País nórdico também concedeu proteção diplomática a advogado de Sakine Asthiani

O Estado de S. Paulo, Jamil Chade, enviado especial a Genebra

08 de agosto de 2010 | 18h21

GENEBRA - Sem alardes ou declarações públicas, o governo da Noruega faz o Irã ceder e consegue a liberação da esposa do advogado Mohammad Mostafaei, responsável pela defesa da iraniana condenada à morte por adultério, Sakine Asthiani. A liberação veio depois que Olso discretamente passou a intervir no caso e, no fim de semana, colocou Mostafaei em proteção diplomática e o levou para a Noruega. Em Oslo, ele contou que chegou a usar o cavalo para cruzar a fronteira montanhosa entre o Irã e a Turquia para fugir das autoridades de seu país. Para ongs, a Noruega mostrou que a situação em Teerã exige ações concretas, "e não declarações".

 

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"Saí do Irã para mostrar ao mundo a injustiça que existe no Irã. Como o meu caso há dezenas no país", afirmou Mostafaei ontem na capital norueguesa. "O clima é de brutalidade e cada vez mais imprevisível", alertou. Mesmo tendo fugido para salvar sua vida, o advogado insiste que seu objetivo é de um dia poder voltar a defender as vítimas. "Se as autoridades iranianas garantirem meus direitos e segurança, retornarei. Nunca pensei que um dia teria de fugir", disse. "Hoje, não tenho como defender meus clientes. Portanto, perdi tudo. Não faz diferença se estou no céu ou no inferno", afirmou Mostafaei, que diz ter tirado 14 de 40 de seus clientes do corredor da morte.

 

Há uma semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou em um comício com a candidata Dilma Rousseff que o Brasil poderia dar asilo à Sakine. Mas o governo nunca formalizou o pedido e Teerã rejeitou a ideia ao escutar que Lula teria feito os comentários em um comício.

 

Alguns dias depois, foi o advogado da iraniana quem fugiu do Irã e chegou até a Turquia. Mas, em Ancara, a embaixada brasileira garantiu ao Estado que não recebeu qualquer instrução para intervir no caso ou oferecer asilo ao advogado. Há duas semanas, as autoridades iranianas prenderam a família de Mostafaei, entre eles sua esposa. "Essa era uma tática para que me entregasse", disse. Sua esposa, Fereshteh Halimi, foi colocada na prisão de Evin, junto com presos políticos. "Ela foi sequestrada", disse o advogado.

 

"Em cinco ocasiões, cheguei a tomar o caminho em direção à polícia para me entregar. Mas então pensei que minha esposa jamais me perdoaria se eu fizesse isso. A pressão foi muito grande", contou ontem o advogado, de Oslo.

 

Na avaliação dele e de ativistas, a atuação discreta da Noruega foi o que garantiu sua segurança e, desde ontem, a liberação de sua esposa. "Agradecemos o governo por sua intervenção rápida no caso e dando refúgio a Mostafaei", afirmou Mina Ahani, ativista iraniana refugiada na Alemanha.

 

"Fizeram poucas declarações públicas e agiram muito nos bastidores", disse, ironizando a atuação de Lula. Para ela, a atuação da Noruega pode mostrar que Teerã não terá como executar Sakine. "O mundo inteiro está olhando agora para o Irã", disse. A Anistia Internacional também elogiou Olso.

 

"Esse é um governo que trabalho pelos direitos humanos em todo o mundo. Isso é admirável. O governo da Noruega tomou a decisão de me acolher mesmo sabemos que pode afetar as relações com o Irã", disse o advogado. Mostafaei contou que um amigo o levou de Teerã a Khoy, 30 quilômetros da fronteira com a Turquia, Depois, andou e usou um cavalo para cruzar as montanhas.

 

Já o governo norueguês preferiu não dar detalhes da operação. O ministro das Relações Exteriores da Noruega, Joan Gahr Store, insistiu que não teve qualquer envolvimento na saída de Mostafaei do Irã. Mas admitiu que passou a atuar uma vez que o advogado chegou á Istambul. "Fomos muito ativo desde que soubemos que ele estava no centro de detenções", disse. Governos europeus temiam que ele pudesse ser entregue de volta aos iranianos. "Tivemos contatos permanentes com a Turquia e com a ONU (para evitar isso)", disse o ministro.

 

O governo convocou o embaixador iraniano no país, para dar explicações sobre alguns casos considerados como mais sérios. "A situação dos direitos humanos no Irã está sob críticas e continuamos muito preocupados com a situação de outros ativistas. Ainda temos relações diplomáticas com o Irã. Mas, por meio de nossas embaixadas, vamos continuar apoiando esses advogados", explicou o chanceler.

 

O advogado não esconde que espera agora que sua esposa viaje para a Noruega com sua filha. Mas admitiu que isso poder levar algum tempo. "O governo pode tentar evitar sua ida", disse.

 

Ontem, Mostafaei contou que começou a trabalhar para salvar mulheres de condenações depois que viu a situação que vivia sua própria mãe. "Já de criança vi o que minha mãe sofria. Hoje, a situação está cada vez pior", disse.

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