Hezbollah assume o controle de parte de Beirute

Milícia xiita controla grande parte da capital libanesa; pelo menos 11 pessoas morrem nos 3 dias de combates

Agências internacionais,

09 de maio de 2008 | 07h38

O grupo libanês Hezbollah, apoiado pelo Irã, tomou o controle da parte muçulmana de Beirute nesta sexta-feira, 9, o que representa um grande prejuízo para o governo apoiado pelos Estados Unidos. Fonte ligadas às forças de segurança disseram que pelo menos 11 pessoas foram mortas e 30 ficaram feridas nos três dias de batalhas entre atiradores a favor do governo e militantes leais ao movimento político xiita que tem um poderoso exército de guerrilha.  Veja também:  Entenda as divisões e a crise política  Os combates, que são os piores desde a guerra civil (1975-90), começaram nesta semana quando o governo tomou decisões contra o sistema de comunicações militares do Hezbollah. O grupo disse que o governo declarou guerra. Em cenas que lembram os piores dias da guerra civil, homens armados com rifles rondavam as ruas em meio aos carros destruídos e prédios em chamas.  Segundo a BBC, a oferta de trégua do líder sunita governista Saad Hariri foi rejeitada pelo Hezbollah e a residência oficial dele foi atingida por fogo de lança-granadas, em meio aos confrontos entre militantes pró e contra o governo. Guerrilheiros da milícia xiita atacaram inclusive os prédios do canal do Future TV, do jornal al-Mustaqbal e rádio Ash Sharq, todos pertencentes a Hariri. De acordo com fontes do Exército, os milicianos disparam com fuzis e lança-granadas contra os prédios e depois entregaram o controle para os militares, com a condição de que as emissoras encerrassem as transmissões e evacuassem seus funcionários. Forças de segurança informaram que o Hezbollah, que também tem o apoio da Síria, tem guerrilheiros posicionados em 11 bairros da capital e já detém o controle dos bairros de Hamra e Verdun. Há tiroteios nas imediações das residências de Hariri e do líder druso Walid Jumblatt. Há informações de que negociações estão em andamento para que Jumblatt possa deixar a área em segurança e, de acordo com emissoras libanesas, os seguranças do ministro da Informação, Ghazi Aridi, se renderam e entregaram suas armas às milícias da oposição. "O partido, apesar de seu poder militar, não pode anular o outro", disse o líder da minoria drusa, ao canal LBC. "Só o diálogo já traz resultados. Fugir do diálogo não é útil." O governo acusa o Hezbollah e seus aliados de tentativa de golpe de estado, enquanto o Exército tenta controlar os combates entre facções rivais. Na terça-feira, Siniora ordenou o fechamento de uma rede de telecomunicações usada pelo Hezbollah com objetivos militares. Em outra medida polêmica, o governo demitiu recentemente o chefe de segurança do aeroporto de Beirute, acusado de permitir que o grupo radical xiita instalasse câmeras no local. O Hezbollah foi a única facção libanesa que recebeu permissão para manter suas armas após o fim da guerra civil, para combater as forças israelenses que ocupavam o sul do Líbano. Israel retirou-se em 2000, mas o destino das armas do Hezbollah é um dos principais pontos da crise política. A situação em Beirute é tensa, e grande parte das ruas estão vazias, com parte da população procurando refúgio em outras áreas ou nas montanhas. Os combates diminuíram durante a noite, mas voltaram com mais força na manhã desta sexta-feira. Algumas estradas foram reabertas no interior do país, mas a rodovia que leva à fronteira com a Síria continua fechada, assim como o aeroporto de Beirute. Guerra civil  A crise começou na manhã de quarta-feira, quando sindicatos pró-oposição realizaram uma greve geral para exigir aumento de salários. Os protestos logo enveredaram para a violência, com militantes pró e contra o governo travando batalhas nas ruas da capital. A oposição exige a renúncia do primeiro-ministro, Fouad Siniora, que tem o apoio dos Estados Unidos e de outros países ocidentais. O Líbano vive uma crise política há mais de um ano e está sem presidente desde novembro do ano passado, quando o pró-sírio Emile Lahoud deixou o cargo. Desde então, governistas e oposição não conseguem chegar a um acordo, com a sessão do parlamento para eleger o novo presidente tendo sido postergada 18 vezes. Analistas vêem como delicada a situação no Líbano. Segundo alguns, o governo caminha para o colapso sem que seus aliados, como a Arábia Saudita e o Egito, tenham mostrado, até agora, sua influência regional. Na semana passada, os governos saudita e egípcio haviam advertido a oposição contra uma tentativa de atacar os sunitas do Líbano. Nas ruas, as milícias sunitas praticamente têm lutado sozinhas contra o Hezbollah e seus aliados. Por enquanto, nem os drusos de Jumblatt, nem os cristãos da Falange e Forças Libanesas se envolveram efetivamente nos confrontos. Para a imprensa local, o país está à beira da guerra civil e o exército sofre com a ameaça constante de se desintegrar em grupos sectários leais aos seus líderes. O Irã e Síria, países que apóiam o Hezbollah, também não se manifestaram sobre os acontecimentos no país. Conselho de Segurança Na quinta-feira, o Conselho de Segurança da ONU colocou a situação das milícias e confrontos nas ruas de Beirute como o assunto principal de sua reunião em Nova York. Um comunicado do Conselho fez um apelo pelo retorno da calma no Líbano. O enviado especial para o Oriente Médio, Terje Roed-Larsen, advertiu o Conselho de que a situação no Líbano era a pior desde o fim da guerra civil (1975-1990). "O que nós presenciamos hoje ilustra a necessidade de integrar as milícias libanesas ao Exército. Se isso não for feito, eu temo que o que estamos presenciando hoje continuará", disse Larsen. A Casa Branca já havia divulgado uma nota na quinta-feira em que condenava as ações do Hezbollah e exigia que o grupo parasse suas "atividades desordeiras"."O Hezbollah precisa fazer uma escolha - ser uma organização terrorista ou um partido político, e não tentar ser os dois", disse o porta-voz da Casa Branca, Gordon Johndroe.  (Com BBC Brasil, Reuters e Associated Press)

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