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Jaber al--Helo/AP
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Horror cotidiano do Estado Islâmico

Militantes capturados, mulheres que conseguiram escapar e ativistas infiltrados contam como é viver sob o terror do extremismo

Uwe Buse e Katrin Kuntz, DER SPIEGEL, O Estado de S. Paulo

05 de julho de 2015 | 03h00

Em junho, circularam imagens de quatro homens trancados num carro e mortos com uma granada, de sete presos com colares explosivos que foram detonados e mais cinco trancados numa gaiola que morreram afogados após ela ser submersa. No total, 16 homens foram assassinados de maneira brutal. Sabemos disso porque os assassinos do Estado Islâmico filmaram as execuções. 

Vivendo sob o julgo do EI, há muita gente que faz questão de documentar todas as atividades dos jihadistas, virtuais e tangíveis. Há oposição nas áreas ocupadas e há indivíduos determinados, apesar do risco de vida, a registrar a vida do dia a dia sob o controle do EI. Graças a essa gente que a Spiegel conseguiu oferecer as percepções da vida cotidiana sob o domínio do EI que são descritas neste artigo. 

Quando o EI chegou a Mossul, muitos pensavam que ele traria ordem. Em vez disso, cada aspecto da vida ficou sufocado por proibições. O regime celebra seu poder com punições draconianas e realiza execuções públicas com a espada como se fossem uma banalidade cotidiana.

É difícil para Ibrahim Aziz (cujo nome, como o de outros, foi mudado) enquadrar essa frase em particular. Hoje, no 12.º mês desde que o EI tomou o poder, ela soa tão absurda, ingênua e ambígua. Esta é a sentença: “Minha mulher e eu saudamos a chegada do EI a Mossul”. 

Aziz é um técnico de meia idade, homem de família meticuloso, com interesse apenas moderado em política. Ele passou a maior parte da vida em Mossul e cresceu durante a ditadura de Saddam Hussein. Ele foi relutantemente obrigado a aprender a conviver com anarquia durante os 12 anos que se passaram desde a chegada da coalizão internacional. Ele teve de se acostumar com o crime que se espalhava pelo Iraque à medida que o país se desintegrava. 

O caos desmoralizou Aziz ao longo dos anos e transformou as hordas homicidas do EI, em junho do ano passado, no mal menor. Aziz acabou por saudar a presença do EI em sua cidade. Ele e a mulher haviam acompanhado o que havia ocorrido na Síria e como as tropas do EI haviam se comportado em Nínive à medida que avançavam sobre Mossul, mas estavam tão desesperados que ignoraram a barbárie e estavam determinados a olhar somente para os aspectos positivos: a nova ordem que eles trouxeram, a paz e a calma que lhes fazia falta. Aziz compara o caso ao dos alemães, que um dia aplaudiram e receberam Hitler e seu regime genocida. 

Hoje, após um ano de vida sob as regras de tiranos islamistas, essas esperanças parecem grotescas para Aziz e sua mulher. Embora o caos já não prevaleça nas ruas da cidade, ele não foi substituído pela confiança, mas por um novo medo. Desta vez, o medo é onipresente, mesmo durante breves e insignificantes encontros na rua, num café ou durante as compras. “Eu me pergunto a quem posso dizer o quê, em quem posso confiar e quanto”, escreve Aziz. 

Coisas que eram parte da vida cotidiana até recentemente estão agora uma longa e absurda lista de proibições. Fumar é proibido. Consumir bebidas alcoólicas também. Usar gel no cabelo é proibido. Retratos em camisetas. Os homens não podem andar com a barba totalmente raspada, enquanto as mulheres devem usar o niqab, o véu preto de rosto que cobre tudo, exceto os olhos. Ser a favor da democracia e de eleições livres é proibido. Tratar xiitas como muçulmanos ortodoxos e yazidis como seres humanos também é proibido. 

Quanto menos xiitas e yazidis existirem, melhor para o EI. O mesmo se aplica a cristãos e judeus, que precisam se converter ou pagar proteção em dinheiro. Quem se recusar a obedecer é morto. É um dever cívico defender os múltiplos genocídios no novo EI, que pretende ser um país de muçulmanos sunitas. 

Aziz é obrigado a viver neste mundo impossível e ainda está tentando se situar. A cada dia, ele tenta imaginar como deve se comportar para evitar ser jogado numa cela de prisão ou levado a um tribunal da sharia (a lei islâmica). O que fazer, por exemplo, quando se dobra uma esquina e entra em uma das praças da cidade, onde se dá de cara com um carrasco prestes a decapitar uma vítima ajoelhada? 

Seria lógico anunciar tal execução, mas isto não acontece. As execuções em Mossul ocorrem repentinamente em praças públicas, em parques, nas ruas e são uma expressão do desprezo do EI por inimigos políticos e pecadores. Aliás, as execuções não pretendem ser um espetáculo, mas sim um desempenho diário, algo banal como um acidente de carro durante a hora do rush. 

Com frequência, o executante, seus auxiliares e a vítima chegam numa picape. O veículo para, os perpetradores saem e, às vezes, um deles carrega um microfone conectado a um sistema de som montado sobre a carroceria. O executante segura uma espada. Os auxiliares arrastam a vítima para a posição desejada e a obrigam a ficar de joelhos. O queixo é empurrado contra o peito para que seu pescoço fique exposto. O veredicto é lido rapidamente e o executante levanta sua espada. 

Sob o domínio dos jihadistas, Aziz tem de conviver com injustiças. Militantes feridos do EI recebem tratamento preferencial em hospitais, onde islamistas confiáveis operam como encarregados. O mesmo vale para as repartições públicas, onde a lealdade aos novos governantes é mais importante do que a competência. 

Em alguns casos, os islamistas aumentaram salários para manter especialistas em seus postos, no sistema de abastecimento de água, por exemplo, mas o abastecimento não melhorou. Só existe água corrente dois ou três dias da semana, os apagões são constantes, a gasolina é escassa, cara e os preços dos alimentos aumentaram. 

Na universidade da cidade, todos os departamentos que contradizem a lei islâmica foram dissolvidos, incluindo filosofia, arte, música direito e ciência política. Muitas construções estão abandonadas por falta de dinheiro. A cidade já não tem uma rede de telefonia móvel. Quem quiser receber uma ligação tem de ir de carro até a periferia da cidade e esperar pelo melhor. Por enquanto, ao menos ainda é possível acessar a internet. 

Os membros da Hisbah, a polícia da moralidade, patrulham as ruas guiando seus veículos pelos bairros para monitorar se as lojas ficam fechadas durante os horários de oração, se os homens estão barbados, as mulheres vestidas com recato e acompanhadas por seu marido ou um parente homem. 

Como os militantes armados nos postos de controle, eles estão constantemente checando telefones celulares e vasculhando entradas e mensagens de texto no Facebook. Quem quiser sair da cidade, precisa dar sua casa ou carro, desde que seja suficientemente valioso, como depósito, ou fornecer o nome de alguém que possa fazê-lo por ele. 

Violações das novas leis levam, na melhor hipótese, a uma multa, para a qual sempre é emitido um recibo. No pior cenário, os que foram advertidos são levados diante de um juiz, que impõe a punição adequada à lei islâmica: bengaladas, açoite ou a espada. 

Esse reino de terror é um dos pilares do poder do EI. Há um segundo que não é tão tosco. São os regulamentos domésticos dos novos governantes. O novo califado também pretende ser social e justo de uma maneira muito particular. É um Estado com base em regras pensadas para serem compreensíveis por qualquer um. 

O desejo de legitimação leva a novas normas e decretos que saem das repartições públicas e ministérios com timbre do EI. Civis e militantes estão igualmente expostos a uma verdadeira inundação desses documentos. A mania regulatória dos islamistas não é inferior a sua sede de sangue. 

Uma notificação da comissão presidencial do EI proíbe a gravação e disseminação de cenas ou a publicação de vídeos em que soldados do EI decapitam seus inimigos. O documento foi encontrado numa conta do Twitter e consiste de 27 perguntas e respostas sobre o tratamento religiosos apropriado de escravas sexuais. 

Outro documento da Província de Alepo, na Síria, enumera os crimes e as punições previstas. Blasfêmia: a morte. Blasfêmia contra o profeta: morte, mesmo que o pecador se arrependa. Blasfêmia contra o Islã: morte. Homossexualidade: morte. Roubo: amputação de uma mão. Consumo de bebida alcoólica: 80 chibatadas. 

Uma ordem de 14 de dezembro de 2014 proíbe o uso de dispositivos da Apple. A proibição destina-se aos combatentes, aplica-se a celulares, tablets e é considerada necessária “por motivos de segurança”. Os militantes também são instruídos a desativarem a função GPS dos dispositivos produzidos por outros fabricantes. Os técnicos de cada distrito que não obedecerem à ordem, serão incluídos na lista. 

A educação nas escolas também foi reformulada. “Não são permitidas perguntas sobre politeísmo, democracia, os princípios de nacionalismo e racismo, usura e juros, acontecimentos pseudo históricos e fronteiras entre os países, que contradigam a lei islâmica. Todos os que a infringirem, serão julgados por um tribunal”. 

A nova norma sobre coleta de lixo diz: “O lixo deve ser colocado na rua depois das orações da noite num barril, balde ou grande saco de plástico preto. Os custos da coleta são 2 mil dinares por mês por casa e 5 mil dinares por empresa. Quem deixar de pagar será conduzido ao tribunal.” Além disso, o gado não pode ser mantido dentro dos limites da cidade. Se isto ocorrer, o animal será confiscado. 

Os documentos mais extraordinários são as declarações terroristas dos relatórios publicados anualmente para convencer simpatizantes, combatentes e financiadores da eficiência do EI. Os relatórios, verdadeiros inventários do terror, descrevem a guerra civil contra os xiitas. O mais recente, um documento de 410 páginas, é organizado por província e traz uma lista de assassinatos, massacres e mortes em ordem cronológica. 

É este o mundo do EI, o mundo em que Ibrahim Aziz e cerca de outros 10 milhões de homens, mulheres e crianças vivem agora. Há alguns meses, Aziz mandou a esposa e os filhos para Erbil, território curdo. Ele permaneceu em Mossul para vigiar a casa e o carro da família. Não tem dinheiro, suas economias praticamente se foram e ele vendeu toda a mobília da casa. Sua única opção é aguardar o que espera que aconteça algum dia: a batalha de Mossul. 

Yazidis. O EI está convencido de que os yazidis não têm o direito de existir. Suas mulheres são sequestradas e violadas pelos barbudos pertencentes à raça autoproclamada dominante. Muitas não querem falar sobre o que aconteceu. Algumas, entretanto, se mostram dispostas, porque acreditam que o seu silêncio representaria mais uma vitória dos seus algozes. Uma destas mulheres, Havin Ali, tem pouco mais de 20 anos, olhos pretos e uma voz firme. Ela mora como refugiada numa casa semiacabada, nos arredores de Dohuk. Os antigos proprietários fugiram. 

Placas de aço usadas como reforço saem das paredes de concreto, não há eletricidade nem água corrente nem janelas. Elas usam cortinas de plástico para se proteger do calor do dia. 

Havin, que agora está com a família, passou mais de três semanas no califado. Uma noite, conseguiu escapar por uma janela quebrada da casa do homem por quem havia sido comprada. A aldeia onde Havin cresceu situa-se no pé dos Montes Sinjar. 

Os militantes do EI capturaram a aldeia no fim do ano passado, depois de um breve confronto entre forças desiguais, em que os homens da aldeia se defenderam contra com seus rifles de um adversário superior. Quando a matança acabou, Havin e suas irmãs foram arrastadas para fora da casa e colocadas num ônibus que já continha muitas mulheres e jovens. O destino era um clube esportivo em Mossul, localizado perto do Hotel Bagdá. 

O EI usava o hotel como depósito provisório para as novas prisioneiras, a nova mercadoria. Havin ficou ali com a irmã sete dias, num grande edifício com centenas de outras mulheres. O ar era ruim, assim como a alimentação, mas a incerteza era ainda pior. Ninguém explicava onde estavam ou o que iria acontecer com elas, Eram tratadas como gado. 

No final da primeira semana, foram colocadas novamente em um ônibus e levadas a um amplo salão de banquetes chamado Galaxy, também em Mossul, transformado pelo EI num mercado de escravas. No edifício, Havin estava em meio a centenas de mulheres vigiadas por militantes do EI. 

“As mais jovens encontravam rapidamente um comprador”, conta. Os militantes as retiravam do meio da multidão, aparentemente ao acaso, e as arrastavam para outra sala. Alguns homens adquiriam uma única mulher, outros compravam várias. Dois homens compraram 80 mulheres e moças de uma vez e as carregaram em dois ônibus. Surgiu o boato de que se destinavam para o setor sírio do EI, para outro mercado de escravas ou para um bordel. 

Quando o boato começou a se espalhar, uma menina se suicidou com um caco de vidro. Aparentemente, uma única mulher conseguiu escapar da prisão. Ela contou aos guardas que estava grávida e fora examinada por médicas que confirmaram a gravidez. Então, foi levada, mas ninguém soube para onde. 

No quarto dia no Galaxy, foi a vez de Havin. Um guarda a agarrou e a levou até um quarto próximo onde ficou em exposição. Os homens olhavam para ela, alguns achando engraçado, outros com avidez. Foi comprada por um barbudo de meia idade, mas Havin nunca soube por quanto. O homem queria que ela fosse um presente para o filho, e ela se casaria com ele. Recebeu um tratamento decente pelo homem que a comprou, aparentemente para não estragar o presente do filho. 

Na casa do seu dono, Havin foi obrigada a ajudar na cozinha, a cozinhar e a cuidar do quintal. Trabalhou com outras mulheres que faziam parte da família, mas elas a desdenhavam. Havin era a única obrigada a andar descalça fora da casa, para impedir que fugisse. O terreno estava coberto de espinheiros e brita. 

Havin conseguiu fugir depois de três semanas, antes que os preparativos do casamento terminassem e antes de ser obrigada a se converter ao Islã. Uma noite, enquanto todos dormiam, conseguiu esgueirar-se por uma janela quebrada e correu descalça. Correu durante horas até que, exausta, encontrou uma patrulha militar, Era uma unidade yazidi. 

Agora, ela está sentada na casa, mas sua irmã e seu irmão mais novo ainda estão desaparecidos. A família sobrevive com suprimentos distribuídos num campo de refugiados vizinho. Quando perguntam o que ela quer para o futuro, ela responde: “A volta dos meus irmãos. E a possibilidade de me vingar.” / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK E ANNA CAPOVILLA 


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