Inteligência do Paquistão apoia insurgência afegã, dizem documentos

Relatórios de guerra que vazaram também revelam centenas de mortes de civis não reportadas

estadão.com.br,

25 de julho de 2010 | 20h05

WASHINGTON- Cerca de 90.000 documentos do Exército americano que englobam seis anos de guerra no Afeganistão mostram mortes de centenas de civis afegãos não reportadas, além de operações secretas contra líderes da insurgência Taleban, noticiaram dois jornais que tiveram acesso aos registros neste domingo, 25.

 

Veja também:

linkTaleban oferece soldado americano morto por prisioneiros

especialEspecial: 30 anos de violência e caos no Afeganistão

 

A organização Wikileaks divulgou os relatórios em seu site hoje. O jornal The New York Times, o The Guardian, de Londres, e a revista semanal alemã Der Spiegel tiveram acesso antecipado às informações.

 

Os documentos - que incluem correspondências e avaliações de oficiais militares e diplomatas - descrevem o temor dos Estados Unidos sobre o possível apoio da inteligência do Paquistão e do Irã aos rebeldes.

 

O NYT afirmou que as informações obtidas sugerem que o Paquistão "permite que representantes de seu serviço de espionagem se encontrem diretamente com o Taleban, em uma estratégia secreta para organizar redes de grupos militantes que lutam contra soldados americanos". Ainda segundo o jornal americano, o serviço secreto paquistanês até planeja atentados para assassinar líderes afegãos", ao mesmo tempo em que o governo de Islamabad recebe mais de US$ 1 bilhão anualmente de Washington para combater os rebeldes.

 

De acordo com o periódico, os documentos de guerra "indicam que os soldados americanos em território afegão têm vários informes de uma rede de agentes e colaboradores paquistaneses que opera desde o cinturão tribal paquistanês ao longo da fronteira com o Afeganistão, até o sul do país, que chega a Cabul."

 

Os relatórios, afirma o jornal, também incluem relatos de primeira mão sobre a falta de comprometimento paquistanesa em fazer frente aos insurgentes que atacam nos arredores de postos do Paquistão na fronteira .

 

O embaixador paquistanês nos Estados Unidos, Husain Haqqani, criticou o vazamento de informações e afirmou que seu país está plenamente comprometido em combater os rebeldes islâmicos. Haqqani afirmou que a publicação dos documentos pelo Wikileaks foi "irresponsável", baseada em informes que "não refletem" a atual realidade.

 

Segundo o Guardian, os documentos mostram "como uma unidade secreta 'negra' de forças especiais caça líderes Taleban" para serem mortos e capturados sem julgamento" e "como os EUA encobriram evidências de que o Taleban adquiriu mortíferos mísseis".

 

O diário britânico também se refere às cifras de civis afegãos mortos e aponta que os registros vazados indicam 195 baixas desse tipo. "Algumas destas baixas se devem aos ataques aéreos que suscitaram protestos do governo no passado, mas um grande número de incidentes até agora desconhecidos parecem ser o resultado de soldados que abrem fogo contra motoristas desarmados ou motociclistas, devido a sua determinação em se proteger de terroristas suicidas".

 

De acordo com o Guardian, os documentos admitem a morte de 195 civis, enquanto 174 foram feridos pelos soldados.  Ainda assim, estes números podem estar errados, "pois muitos incidentes são omitidos dos relatórios de guerra".

 

Em um comunicado, a Casa Branca afirma que o quadro caótico pintado pelos relatórios foi resultado da 'falta de recursos' do governo predecessor ao de Barack Obama. "É importante notar que o período refletido nos documentos é de janeiro de 2004 a dezembro de 2009", diz o texto.

 

O governo Obama também criticou a publicação de arquivos pelo Wikileaks: "Nós condenamos fortemente a divulgação de informações secretas por indivíduos e organizações, o que coloca a vida de militares americanos e parceiros em risco e ameaça nossa segurança nacional".

 

Um oficial do governo americano disse em condição de anonimato que Washington já contatou autoridades paquistanesas e afegãs para adverti-las sobre o vazamento dos documentos.

 

Segundo outro funcionário que também não quis revelar seu nome, o governo levará dias para analisar todos os relatórios e determinar o que eles significam para a guerra e seu potencial de ameaça à segurança nacional. O governo, ainda de acordo com a fonte, não está certo de quem poderia ter vazado os documentos.

 

Obama divulgou em dezembro de 2009 sua nova estratégia para o Afeganistão, em um novo plano que proporciona mais recursos para a guerra e foca mais em faze frente aos redutos da Al-Qaeda e do Taleban no Paquistão.

 

Mortes de civis

 

Um funcionário americano afirmou que a Wikileaks não é uma fonte de notícias objetivas, mas sim uma organização que se opõe à política americana no Afeganistão.

 

O dossiê veio à tona no momento em que a Otan diz estar investigando denúncias sobre a morte de até 45 civis em um ataque aéreo na província de Helmand na sexta-feira.

 

Embora o inquérito preliminar não tenha encontrado provas, um jornalista da BBC que esteve no povoado de Regey conversou com várias pessoas que dizem ter testemunhado o incidente.

 

Elas afirmaram que o ataque foi durante o dia, quando dezenas de pessoas buscavam abrigo no local por causa do combate que estava sendo travado no vilarejo vizinho Joshani.

 

Com AP, Efe, AFP e BBC

 

Atualizado às 21h59

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.