Irã ameaça Marinha dos EUA; sanções atingem economia

O Irã fez nesta terça-feira sua ameaça mais agressiva após semanas de ofensividades ao afirmar que vai reagir se a Marinha dos Estados Unidos deslocar um porta-aviões para o Golfo Pérsico, depois que novas sanções financeiras dos EUA e da União Europeia afetaram sua economia.

PARISA HAFEZI, REUTERS

03 de janeiro de 2012 | 15h59

A perspectiva de sanções que prejudiquem de uma maneira grave o setor do petróleo iraniano pela primeira vez atingiu a moeda do país, o rial, que registrou recorde de baixa nesta terça-feira e caiu 40 por cento em relação ao dólar no último mês.

Filas foram formadas diante de bancos e casas de câmbio fecharam suas portas enquanto os iranianos tentavam comprar dólares para proteger suas economias da desvalorização da moeda.

O chefe do Exército, Ataollah Salehi, disse que os Estados Unidos haviam deslocado um porta-aviões para fora do Golfo por causa dos recentes exercícios navais do Irã, e que o Irã reagiria se o navio retornasse.

"O Irã não vai repetir sua advertência... o porta-aviões do inimigo se dirigiu ao Mar de Omã por causa de nossos exercícios. Eu recomendo - e enfatizo - ao porta-aviões americano que não retorne ao Golfo Pérsico", disse Salehi à agência de notícias iraniana Irna.

"Eu aviso, recomendo e alerto (os norte-americanos) quanto ao retorno de seu porta-aviões ao Golfo Pérsico, porque nós não temos o hábito de fazer advertências mais de uma vez", declarou Salehi, segundo outra agência de notícias, a semioficial Fars.

O porta-aviões USS John C. Stennis lidera uma força-tarefa da Marinha norte-americana na região. Agora ele está no Mar da Arábia, fornecendo apoio aéreo para a guerra no Afeganistão, disse a tenente Rebecca Rebarich, porta-voz da 5a Frota dos EUA.

A embarcação deixou o Golfo em 27 de dezembro em "um trânsito de rotina pré-planejado" pelo Estreito de Ormuz, disse ela.

Quarenta por cento do petróleo comercializado no mundo passa pelo estreito canal - que o Irã ameaçou fechar no mês passado se as sanções internacionais suspenderem suas exportações de petróleo.

PETRÓLEO SOBE

O futuro do petróleo Brent subia quase 4 dólares na tarde de terça-feira em Londres, pressionando o preço do barril para mais de 111 dólares pelas notícias de ameaças em potencial ao fornecimento no Golfo, assim como pelos fortes números econômicos chineses.

A última ameaça de Teerã é feita em um momento em que as sanções estão tendo um impacto inédito em sua economia, e o país enfrenta incerteza política com uma eleição em março, a primeira desde uma votação contestada em 2009 que provocou protestos no país todo.

O Ocidente impõe sanções cada vez mais severas contra Teerã por causa do programa nuclear iraniano, que o país diz ser pacífico, mas que potências ocidentais acreditam ter por objetivo construir uma bomba atômica.

Depois de anos adotando medidas de baixo impacto, as novas sanções são as primeiras que podem provocar um efeito grave no comércio do petróleo do Irã, base de 60 por cento de sua economia.

As sanções que viraram lei assinada pelo presidente norte-americano Barack Obama na véspera do Ano Novo podem tirar as instituições financeiras que trabalham com o Banco Central do Irã do sistema financeiro norte-americano, bloqueando o principal caminho para pagamentos pelo petróleo iraniano.

A UE deve impor novas sanções até o final deste mês, possivelmente incluindo uma proibição às importações de petróleo e um congelamento de ativos do banco central.

Mesmo o principal parceiro comercial do Irã, a China, - que se recusou a apoiar novas sanções globais contra o Irã - está exigindo descontos para comprar o petróleo iraniano, em um momento em que as opções de Teerã encolhem.

Pequim reduziu suas importações de petróleo bruto iraniano em mais da metade para janeiro, pagando prêmios para o petróleo da Rússia e do Vietnã para substitui-lo.

O Irã vem respondendo às medidas mais duras com uma retórica beligerante. A República Islâmica completou na segunda-feira dez dias de exercícios navais no Golfo e, durante essas manobras, afirmou que se alguma potência estrangeira impuser sanções a suas exportações de petróleo o país poderá fechar o Estreito de Ormuz.

Especialistas ainda dizem que Teerã não deve transformar sua retórica em um ato de guerra - a Marinha dos EUA é muito mais poderosa do que as forças marítimas do Irã -, mas as opções diplomáticas do Irã estão acabando e isso pode levar a um confronto.

"Acho que deveríamos ficar muito preocupados porque a diplomacia que deveria acompanhar esse aumento de tensão parece estar faltando em ambos os lados", disse Richard Dalton, ex-embaixador britânico no Irã e hoje membro do instituto de estudos Chatam House.

"Não acredito que nenhum lado queira começar uma guerra. Eu acho que os iranianos estarão cientes de que se bloquearem o Estreito ou atacarem um navio norte-americano, serão os perdedores. Nem acho que os EUA queiram usar seu poderio militar com outro objetivo a não ser como pressão. No entanto, em um estado de emoções exacerbadas em ambos os lados, estamos em uma situação perigosa".

(Reportagem adicional de Hashem Kalantari em Teerã, Humeyra Pamuk em Dubai, Brian Love em Paris, Keith Weir e William Maclean em Londres e Florence Tan em Cingapura)

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