Irã anuncia autossuficiência na produção de combustível nuclear

Declaração foi feita às vésperas da primeira negociação entre Teerã e o Ocidente, na segunda-feira, 6, em Genebra, após um ano de impasses

Jamil Chade / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2010 | 17h39

Na tentativa de dar um sinal de que não irá desistir de seu programa atômico, o Irã anunciou neste domingo, 5, que se tornou pela primeira vez autossuficiente na produção completa do ciclo do combustível nuclear, driblando as sanções da ONU. O país passou a utilizar urânio de uma mina local para a produção de combustível, um passo significativo em seu programa atômico e uma demonstração de que não ficará dependente de fornecimento de urânio do exterior.

 

A declaração foi feita às vésperas da primeira negociação entre Teerã e o Ocidente, na segunda-feira, 6, em Genebra, depois de mais de um ano de impasses. "Seja qual for o esforço que o Ocidente coloque em suas sanções, nossas atividades nucleares continuarão e verão grandes conquistas no futuro", disse o diretor do Organismo de Energia Atômica iraniano, Ali Akbar Salehi. "Vamos à negociação com força e poder", disse.

 

Na segunda, depois de 14 meses sem contatos, as potências do Conselho de Segurança da ONU, Alemanha e o Ira se sentarão à mesa para voltar a dialogar. O encontro em Genebra terá a presença apenas da União Europeia, que representará os demais parceiros que pressionam por uma solução ao polêmico programa nuclear iraniano. Mas a própria chefe da diplomacia da UE, Catherine Ashton, admitiu ontem que não se esperam resultados concretos da reunião que ocorre entre a segunda e a terça-feira, mas sim uma demonstração de um compromisso real de negociar e uma espécie de agendas com temas que poderão ser tratados.

 

Mas, se confirmada, a medida anunciada ontem ainda significaria que o Ira driblaria as quatro rodadas de sanções do Conselho de Segurança da ONU que impedem a importação do pó de oxido de urânio concentrado, conhecido como Yellow Cake, e considerado como fundamental para a geração do combustível nuclear.

 

Na prática, a dependência na importação do material estaria rompida, o que daria pela primeira vez autonomia para o funcionamento das usinas nucleares. "Isso significa que o Irã se tornou autossuficiente em no ciclo completo do combustível", afirmou Salehi. "A partir de agora, o Irã já não terá problemas no abastecimento de urânio", disse.

 

Em fevereiro, o governo já havia desafiado as organizações internacionais e a pressão do Conselho de Segurança, anunciando que daria inicio à produção de urânio enriquecido. No domingo, 5, Teerã indicou que, desde então, já produziu mais de 35 quilos de urânio enriquecido a 20%. A produção, porém, poderia quase dobrar se fosse necessário.

 

Agora, após ser processado em centrífugas, o pó tem a possibilidade de ser transformado em hexafluoreto de urânio (UF6), essencial no processo de enriquecimento e vital no eventual de desenvolvimento de armas atômicas, algo que o Ocidente teme que seja as reais intenções de Teera. O primeiro material teria sido produzido a partir das minas de Bander Abbas e a primeira utilização teria sido a usina de Isfahan.

 

Salehi ainda alertou que o anúncio era uma demonstração de que nada iria parar os iranianos em seu projeto atômico. O recado está também relacionado ao misterioso ataque contra dois cientistas nucleares no Ira, há uma semana. Um deles não sobreviveu e o Irã acusou a CIA pelo assassinato.

 

Isolamento - Para o Ocidente, a declaração não ocorre por acaso e sao mera "propaganda" para a populacao interna, cada vez mais desconfiada da lideranca. A avaliacao de diplomatas ocidentais é de que os comentários do Ira são uma forma de criar uma situacão que não condiz com a realidade. A avaliação do grupo é de que as sanções estão dando os primeiros resultados, afetando a economia do país e obrigando o Irã a sentar à mesa para negociar.

 

O Ocidente acusa Teerã de camuflar um projeto com dimensões militares, argumentando que o país tem apenas objetivos civis com o desenvolvimento da tecnologia nuclear. Por isso, vai querer a partir de hoje garantias da parte do Irã de que suas ambições são pacíficas. Essas garantias seriam seguidas por mecanismos concretos e do fim das atividades de enriquecimento de urânio.

 

Salehi mantém seu discurso desafiador e diz que a negociacão serve mais aos americanos e europeus que ao Irã.

 

Na sexta-feira, 3, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, pediu que o Ira participe das negociações em Genebra em "boa fé" e com uma "avaliação real do que o isolamento significa". Há apenas uma semana, documentos revelados pelo grupo WikiLeaks indicaram como vários países àrabes estariam dispostos a apoiar um ataque contra Teerã, antes que obtenha a arma nuclear.

 

Mas Hillary ainda indicou que o Irã poderia enriquecer urânio no futuro, mas "uma vez que demonstrem que o podem fazer de forma responsável e de acordo com suas obrigações internacionais".

 

Saïd Jalili, negociador iraniano que lidera a delegação em Genebra, já afirmou no domingo mesmo que os direitos de Teerã de ter seu programa nuclear "não são negociáveis".

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