Irã diz que construirá dez novas plantas para enriquecer urânio

Anúncio acontece três dias depois de agência da ONU aprovar resolução contra programa nuclear

Efe e Reuters,

29 Novembro 2009 | 09h28

O governo iraniano anunciou neste domingo, 29, planos de construir dez novas plantas de enriquecimento de urânio e disse que o trabalho começará dentro de dois meses, de acordo com a TV estatal. O anúncio é um claro desafio às potências ocidentais e à Agência Internacional de Energia Atômica, órgão ligado à ONU, que acusam o Irã de desenvolver um programa nuclear com o objetivo de obter armas nucleares.

 

As novas plantas de enriquecimento de urânio terão o mesmo tamanho do principal complexo nuclear do país em Natanz e os trabalhos começarão em dois meses, anunciou a TV.

 

Veja também:

especialEspecial: O histórico de tensões do Irã

especialEspecial: O programa nuclear do Irã

especialEspecial: As armas e ambições das potências

 

O presidente linha dura Mahmoud Ahmadinejad, que teria participado da reunião em que a construção das novas plantas foi definida, disse que o Irã deve ter como objetivo a produção de 200 a 300 toneladas de combustível nuclear por ano.

 

Na semana passada, o líder iraniano esteve no Brasil e se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula, que foi criticado por receber Ahmadinejad, afirmou que o Irã tem o direito de desenvolver um programa nuclear pacífico e exortou o país a colaborar com a ONU na busca de uma solução negociada.

 

"Dez novas plantas de enriquecimento serão construídas", disse o chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, Ali Akbar Salehi, segundo a agência de notícias semi-oficial Mehr News. Segundo a TV estatal IRIB, os locais de cinco das novas plantas já foram definidos.

 

A decisão de construir novas plantas agravará as tensões entre a República islâmica e países como EUA, França, Reino Unido e Alemanha, além da Rússia e China, tradicionais aliados do Irã, que nos últimos meses negociaram com o país uma solução diplomática para o impasse em relação ao programa nuclear iraniano. O Irã nega que pretenda construir bombas nucleares e afirma que seu programa é pacífico.

 

Há algumas semanas, o Irã e as potências ocidentais chegaram a anunciar um acordo segundo o qual o material nuclear iraniano seria enviado à Rússia e à França onde seria enriquecido e, posteriormente, devolvido ao país. Mas nas semanas seguintes o Irã não confirmou o acordo.

 

Em consequência, na última quinta-feira o Conselho de Governadores da AIEA, agência nuclear da ONU, aprovou uma resolução de condenação ao Irã devido à falta de  cooperação e transparência em torno de seu polêmico programa nuclear.

 

O documento, impulsionado por Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia, China e Alemanha, contou com o voto favorável de 25 países, enquanto três - Venezuela, Cuba e Malásia - votaram contra e seis - Brasil, Turquia, Paquistão, Afeganistão, África do Sul e Egito - se abstiveram.

Em resposta, o regime dos aiatolás já anunciou na sexta-feira que reduziria seu nível de cooperação com a citada agência das Nações Unidas e deu a entender que buscará o urânio enriquecido de que diz precisar por outras vias.

Também neste domingo, poucas horas antes do anúncio das novas plantas, o Parlamento iraniano havia pedido ao governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad que reduzisse rapidamente o nível de cooperação nuclear com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e não interrompesse o desenvolvimento do programa nuclear.

"Pedimos ao governo que, levando em conta a postura bélica do 5+1 (grupo de países negociadores), prepare rapidamente um projeto para reduzir o nível da cooperação com a AIEA e o entregue à comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento", afirmava a carta, assinada por 226 deputados.

"Os deputados estão convencidos de que a vontade política de algumas grandes potências, precisamente Estados Unidos e Reino Unido, forçaram este desvio no caminho", acrescentou o texto.

"A resolução política, que não foi adotada de forma unânime pelo Conselho de Governadores, foi divulgada apesar de o diretor-geral da AIEA (Mohamad ElBaradei) insistir no caráter pacífico do programa nuclear iraniano", argumentaram hoje, em sua carta, os deputados.

"O povo iraniano não tem dúvida de que, do ponto de vista jurídico, não existe desvio algum no programa nuclear da República Islâmica", ressaltaram.

Neste sentido, os deputados insistiram em que o expediente iraniano deve "se normalizar e recuperar o caminho correta" da AIEA, e não prosseguir o "caminho errôneo" do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

"Obama não só não mudou nada, mas sua linguagem está na mesma onda radical que o dos conservadores que controlavam a Casa Branca durante a Presidência de George W. Bush", afirmaram.

"O Conselho de Governadores optou por uma política de dois pesos e duas medidas. Uma entidade profissional como esta deve evitar esse caminho, que deteriora seu prestígio e mostra à opinião pública internacional que está sob a pressão das grandes potências", concluíram.

 

REPERCUSSÃO

 

A Casa Branca disse que os planos do Irã representam sérias violações às suas obrigações internacionais e podem isolar ainda mais o país. "Se verdadeiro, isso representaria outra séria violação às claras obrigações do Irã com as múltiplas resoluções do Conselho de Segurança da ONU, e outro exemplo do país escolher o isolamento", disse o porta-voz Robert Gibbs em comunicado.

 

Texto atualizado às 17h45.

Mais conteúdo sobre:
Irã programa nuclear AIEA

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.