Irã pede calma em crise com a Grã-Bretanha

O Irã pediu ao Ocidente que evite aprofundar a crise diplomática depois da invasão da embaixada britânica em Teerã, dizendo que este era um problema entre Teerã e Londres apenas, informou a mídia iraniana neste sábado.

PARISA HAFEZI E RAMIN MOSTAFAVI, REUTERS

03 de dezembro de 2011 | 11h37

A Grã-Bretanha fechou sua embaixada depois que jovens linha-dura atacaram o prédio na terça-feira, e expulsou todos os diplomatas iranianos de Londres. A situação delicada para Teerã se espalhou, com outros países chamando de volta seus enviados para consultas, incluindo França, Alemanha, Itália e Holanda.

"O governo britânico está tentando estender a outros países europeus o problema entre nós dois," disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Ramin Mehmanparast, segundo a Fars, agência de notícias semioficial iraniana.

"Mas é claro que dissemos aos países europeus que não submetessem seus laços conosco ao tipo de problema existente entre Irã e Grã-Bretanha."

Países ocidentais endureceram na quinta-feira as sanções contra o Irã, com a União Europeia expandindo uma lista negra iraniana e o Senado dos Estados Unidos aprovando uma medida que pode prejudicar a renda que o Irã tira do petróleo.

Os diplomatas iranianos expulsos de Londres chegaram ao país-natal no sábado e foram recebidos por partidários com flores e gritos de "Morte à Inglaterra."

"A embaixada espiã fechou para sempre," dizia um dos muitos cartazes exibidos pelo grupo de 100 homens e mulheres reunidos no aeroporto Mehrabad de Teerã. A maioria parecia ser da milícia linha-dura Basij.

Com a imediata condenação internacional, o ataque à embaixada britânica pode isolar ainda mais o Irã, que já está sob várias rodadas de sanções.

BRECHA POLÍTICA

Sinais mistos de Teerã por causa do ataque atraíram a atenção para a divisão política na liderança iraniana, uma divisão criada após a controversa eleição presidencial de 2009.

O Ministério das Relações Exteriores iraniano pediu desculpas pelo ataque à embaixada, mas alguns rivais linha-dura do presidente Mahmoud Ahmadinejad elogiaram o incidente, atribuindo-o a uma reação espontânea de estudantes à "política historicamente hostil" da Grã-Bretanha para com o Irã.

O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, que tem a última palavra em questões de Estado, e Ahmadinejad mantiveram-se em silêncio, um sinal de mal-estar entre o establishment clerical por causa da crise.

Mas em declarações feitas no sábado, Ahmadinejad disse que o Irã não se curvaria a pressões.

"Continuaremos fiéis aos princípios e valores da nossa revolução com toda nossa força, mesmo que o mundo todo se volte contra nós," disse a um grupo de clérigos, segundo o site oficial President.ir

O clérigo linha-dura Ahmad Khatami condenou a invasão da embaixada.

"Digo isso de forma explícita, eu me oponho a ataques e ocupações de embaixadas estrangeiras na República Islâmica," disse segundo a agência de notícias Isna. "O ataque lançado por estudantes criará um sentimento de insegurança entre os diplomatas estrangeiros no Irã."

Os manifestantes invadiram dois complexos diplomáticos britânicos, quebrando janelas, pondo fogo em um carro e queimando a bandeira britânica em um protesto contra as novas sanções impostas por Londres.

Analistas dizem que o fechamento das embaixadas, rompendo o canal de comunicação, vai complicar a chance de se chegar a uma solução diplomática para o programa nuclear iraniano.

"O fim das conversas com as grandes potências significa confronto e ataques militares contra o Irã. Esse cenário assusta o regime iraniano," disse um analista, que pediu anonimato.

Analistas dizem que as autoridades iranianas estão preocupadas com um ataque militar contra suas instalações nucleares e com a retomada de protestos de rua contra o governo como os que se seguiram após a eleição de 2009.

"As sanções estão prejudicando o povo e pode obrigá-lo a voltar às ruas para expresser sua raiva pelo estado da economia," disse o analista Hamid Farahvashi.

(Reportagem adicional de Sanam Shantyaei, Hashem Kalantari e Robin Pomeroy)

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