Irã se diz pronto para preencher vácuo de poder no Iraque

Ahmadinejad acusa EUA de interferência nos assuntos internos iraquianos e rebate críticas a Maliki

Associated Press e Reuters

28 de agosto de 2007 | 14h33

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, advertiu nesta terça-feira, 28, que o poder dos Estados Unidos está desmoronando rapidamente no Iraque e que um vazio de poder é iminente, e disse que o Irã está pronto para ajudar a preencher esse espaço. "O poder político dos ocupantes está desmoronando rapidamente", disse Ahmadinejad numa entrevista coletiva em Teerã, se referindo às tropas dos EUA no Iraque. "Em breve, vamos ver um grande vazio de poder na região. Naturalmente, estamos preparados para preencher o vazio, com a ajuda dos vizinhos e amigos regionais como a Arábia Saudita, e com a ajuda da nação iraquiana". Ahmadinejad não entrou em detalhes, mas suas declarações reforçam a impressão de que Irã está ansioso por aumentar sua influência na região. Sua menção a um papel da sunita Arábia Saudita pode ser uma tentativa de afastar temores regionais de que o xiita Irã quer controlar o Iraque. No começo do mês, durante uma visita do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, líderes iranianos afirmaram que só com a retirada das tropas americanas haverá paz no Iraque e prometeram o empenho de Teerã na estabilização do país. Interferência Na entrevista desta terça, Ahmadinejad acusou os Estados Unidos de interferirem nos assuntos internos iraquianos e rebateu recentes críticas de políticos americanos aos fracassados esforços de al-Maliki para reconciliar sunitas, xiitas e curdos do país. "Eles dizem grosseiramente que o primeiro-ministro e a constituição (iraquianos) têm de ser mudados", afirmou Ahmadinejad. "Quem são eles? Quem deu a eles o direito" de exigir tais mudanças, acrescentou, defendendo al-Maliki, um xiita. Diante de pedidos tanto de republicanos como de democratas por seu afastamento, al-Maliki tem dito que "não presta atenção" a seus críticos americanos e que se necessário procurará "amigos em outros lugares". O presidente iraniano considerou que "a ocupação é a raiz de todos os problemas no Iraque (...) Eles (os EUA) não têm opção, terão de aceitar a derrota e aceitar a independência e os direitos da nação iraquiana". Ahmadinejad desafiou a administração Bush a responder para que 600.000 iraquianos foram mortos desde a invasão de 2003. "Quem vai responder por isso? O que foi alcançado?" Ahmadinejad desprezou a possibilidade de um ação militar dos EUA contra seu país, dizendo que Washington não tem planos e não está em posição de assumir tal ação. "Digo a vocês com convicção que não existe qualquer possibilidade de tal decisão nos EUA", disse o presidente. "Mesmo se eles decidissem agir, eles não seriam capazes de concretizar os planos". Acusações Nucleares Ahmadinejad também rebateu as informações de que o Irã teria diminuído o ritmo dos trabalhos com material nuclear, que o Ocidente teme ser uma fachada para a fabricação de bombas atômicas. Ele afirmou que vai reagir se os EUA classificarem as Guardas Revolucionárias como uma força terrorista. Agora que os muçulmanos xiitas estão no poder no Iraque, as relações com o Irã, também de maioria xiita, se reforçaram. Saddam Hussein, derrubado pela invasão liderada pelos EUA, era árabe sunita e travou uma guerra durante oito anos com o Irã na década de 1980. As Forças Armadas dos EUA acusam a República islâmica de armar e treinar milícias que estão por trás de parte da violência que domina o Iraque. O Irã nega, e atribui os problemas à presença das forças norte-americanas, num total de cerca de 162 mil soldados. "Eles estão presos no atoleiro de seus próprios crimes e não têm escolha senão aceitar a independência e os direitos da nação iraquiana", disse Ahmadinejad. "Se vocês ficarem no Iraque por mais 50 anos nada vai melhorar, só vai piorar." Este mês, o enviado de Washington ao Iraque alertou que a retirada norte-americana pode abrir as portas para um "grande avanço iraniano", que ameaçaria os interesses dos EUA na região. Durante a entrevista, que durou duas horas, Ahmadinejad negou que o Irã esteja desacelerando seu programa nuclear. "Não é verdade", disse. Diplomatas em Viena disseram que as atividades nucleares parecem ter diminuído de ritmo e que Teerã parece ter menos que as 3.000 centrífugas de enriquecimento de urânio que pretendia ter instaladas até o fim de julho. O Irã afirma que só quer usar o urânio enriquecido para alimentar usinas de energia elétrica, mas o Ocidente teme que o material seja usado para fazer bombas. "Quero anunciar oficialmente a vocês que, de nosso ponto de vista, a questão do caso nuclear iraniano está encerrada. Hoje o Irã é um Irã nuclear, o que quer dizer que possui o ciclo completo de produção de combustível," disse ele. Os EUA afirmaram este mês que podem classificar as Guardas Revolucionárias iranianas como um grupo terrorista, medida que afetaria as finanças da força de elite. Ahmadinejad, ex-comandante das Guardas, disse achar "altamente improvável que o governo americano assuma uma abordagem tão ilógica ... seria uma piada." Mas acrescentou: "Eles sabem que qualquer ação contra a nação iraniana terá a resposta adequada."

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