Isil declara instalação de califado islâmico

Em documento divulgado nas redes sociais, o grupo designou um califa para todos os muçulmanos, o chefe do Isil, Abu Bakr al Bagdadi

REUTERS, AP e AFP

29 de junho de 2014 | 17h27

O grupo radical sunita Estado Islâmico no Iraque no Levante (Isil, na sigla em inglês), que controla amplas áreas na Síria e no Iraque, declarou neste domingo, 28, a instalação de um califado islâmico. O anúncio foi feito em meio a uma operação das forças iraquianas para tentar retomar o controle de várias áreas, principalmente Tikrit, cidade natal do ditador Saddam Hussein.

Em um documento intitulado “Esta é a promessa de Alá”, divulgado nas redes sociais, o grupo informou que seus líderes “resolveram anunciar o estabelecimento do califado islâmico e a designação de um califa para todos os muçulmanos", que será o chefe do Isil, Ibrahim ibn Awad, mais conhecido como Abu Bakr al Bagdadi.

O Isil também anunciou que está eliminando a parte “no Iraque e no Levante” do nome do grupo e passará a ser denominado somente como “Estado Islâmico”.

O califado é o sistema político que governou a comunidade muçulmana desde o nascimento do Islã com o Profeta Maomé e sobreviveu, em diferentes formas e lugares, até o fim do califado otomano, que Mustafá Kemal Ataturk aboliu no início do século 20 para criar a nova Turquia. O califa é a máxima autoridade religiosa e política do califado, cuja norma política é a sharia (a lei islâmica).

“Esclarecemos que com esta declaração de califado, é imperativo que todos os muçulmanos jurem lealdade ao califa Ibrahim e o apoiem”, afirmou a organização jihadista, considerada uma cisão da Al-Qaeda.

Segundo a declaração, “a legalidade de todos os emirados, grupos, Estados e organizações fica anulada pela expansão da autoridade do califa e a chegada das tropas a suas áreas”.

Charles Lister, do Brookings Doha Center, viu um significado considerável na medida. “Qualquer julgamento que possa ser feito em termos de legitimidades, o anúncio da restauração do califado é o mais significativo evento do jihadismo internacional desde o 11 de Setembro”.

“O impacto desse anúncio será global, já que os afiliados da Al-Qaeda e os grupos jihadistas independentes precisam escolher entre apoiar e aderir ao Estado Islâmico ou se opor a ele”, disse Lister.

Combatentes do grupo tomaram a cidade de Mossul no mês passado e têm avançado rumo a Bagdá. Na Síria, eles capturaram amplas áreas no norte e no leste, ao longo da fronteira com o Iraque.

O Exército iraquiano enviou neste domingo tanque e blindados a Tikrit, no segundo dia da ofensiva para tentar retomar o controle da cidade capturada pelo Isil, cujos membros conseguiram derrubar um helicóptero militar. O Exército iraquiano conta com a cooperação dos EUA, que têm informado sobre os alvos a serem bombardeados. O porta-voz do Exército, Qassim Atta, disse neste domingo que as forças de segurança tinham matado 142 “terroristas” em 24 horas, entre eles 70 em Tikrit, e haviam retomado o controle da universidade da cidade. O governo iraquiano também anunciou que especialistas da Rússia chegaram ao país para ajudar o Exército com 12 novos caças russos que serão usados na ofensiva contra os extremistas sunitas. Pelo menos nove civis, membros de uma mesma família, foram mortos nos bombardeios do exército iraquiano na Província de Salahuddin.

Crucificados. Oito combatentes rebeldes foram crucificados pelo Isil na província síria de Alepo por serem considerados muito moderados, informou o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, que monitora o grupo na Síria.

Em Bagdá, ameaçada pelo avanço rebelde, líderes sunitas, xiitas e curdos estavam reunidos para tentar chegar a um acordo sobre a formação de um novo gabinete antes de o Parlamento, eleito em abril, se reunir na quinta-feira. Os políticos estão sob intensa pressão para acelerar o processo de escolha de um novo governo para enfrentar a crise. O primeiro-ministro xiita Nuri al-Maliki vem sendo acusado de incitar a revolta da minoria sunita do país ao não adotar um governo de união como havia prometido e corre o risco de perder o poder.

Curdistão. Citando o caos no Iraque, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, manifestou neste domingo, 29, seu apoio ao estabelecimento de um Curdistão independente como parte de uma ampla aliança entre Israel e as forças moderadas na região. Em um discurso em Tel-Aviv, Netanyahu disse que tanto o aumento de grupos extremistas sunitas apoiados pela Al-Qaeda quanto forças xiitas apoiadas pelo Irã criaram a oportunidade para se criar uma cooperação regional.

Ele disse que a Jordânia, que está ameaçada pelo conflito nos vizinhos Iraque e Síria, e os curdos, que controlam a região autônoma rica em petróleo, precisam de apoio. Netanyahu disse que os curdos “são uma nação de combatentes e provaram politicamente que merecem a independência”.

Há muito tempo os curdos desejam a independência, mas admitem que sua aspiração não é factível neste momento. A comunidade internacional, os EUA e a vizinha Turquia são contra uma separação no Iraque.

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