Israel pressiona diretor da AIEA a condenar programa nuclear do Irã

Estado judeu, suspeito de ser única potência nuclear da região, aponta Teerã como ameaça

DAN WILLIAMS, REUTERS

25 de agosto de 2010 | 17h05

O governo de Israel pressionou nesta quarta-feira, 25, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) a apontar o Irã como a verdadeira ameaça à não proliferação de armas nucleares no Oriente Médio, embora o próprio Estado judeu esteja na mira da organização por causa do seu suposto arsenal atômico.

Veja também:

linkGoverno do Irã diz estar pronto para vender armas ao Exército do Líbano

especialEspecial: O programa nuclear do Irã

lista Veja as sanções já aplicadas contra o Irã

Yukiya Amano chegou na segunda a Israel com a missão de discutir uma resolução, promovida por países árabes, que colocaria sob inspeção internacional o reator nuclear secreto israelense de Dimona, segundo autoridades.

A resolução deverá ser debatida novamente no mês que vem na assembleia da AIEA em Viena.

Os israelenses levaram o diplomata japonês a um passeio de helicóptero, destinado a demonstrar a vulnerabilidade geográfica de Israel.

Os anfitriões fizeram poucas menções públicas à capacidade nuclear do país, citando em vez disso o arquirrival Irã, cujo programa de enriquecimento de urânio faz o Ocidente suspeitar do desenvolvimento de armas atômicas, o que Teerã nega.

Em nota divulgada pela Comissão de Energia Atômica de Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e outras autoridades alertam Amano sobre "o perigo inerente ao programa nuclear iraniano e a necessidade de a comunidade internacional ser alistada para contê-lo".

Referindo-se às críticas da AIEA contra as políticas de Israel, a comissão disse que Amano ouviu um pedido para "não permitir tentativas tendenciosas de desviar a atenção da comunidade internacional dos reais desafios à (não) proliferação nuclear do Oriente Médio".

Países árabes e alguns outros membros da AIEA querem que Israel assine o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), de 1970, o que pressuporia abrir mão do seu suposto arsenal nuclear para ter direito a assistência na produção de energia nuclear civil.

Mantendo-se fora do TNP, Israel preserva o sigilo sobre o seu programa nuclear. Acredita-se que o país tenha o único arsenal atômico do Oriente Médio, o que preocupa seus vizinhos.

Uma resolução da AIEA em setembro de 2009 pediu a Amano que consulte os "Estados envolvidos" a respeito de como fazer Israel aderir ao TNP, e que apresente um relatório na próxima assembleia.

Um diplomata em Viena, onde fica a sede do TNP, previu que o relatório de Amano será "absolutamente neutro".

Israel condiciona sua adesão ao TNP a uma paz abrangente no Oriente Médio -- algo improvável enquanto governos como o do Irã se recusarem a reconhecer a existência de Israel.    

 

 Impasse  

 

As potências ocidentais acusam o Irã de esconder, sob seu programa nuclear civil, outro de natureza clandestina e aplicações bélicas, cujo objetivo seria a aquisição de armas atômicas. Teerã nega tais alegações.

 

As tensões sobre o programa nuclear iraniano se acirraram no final do ano passado após o Irã rejeitar uma proposta de troca de urânio feita por EUA, Rússia e Reino Unido. Meses depois, o país começou a enriquecer urânio a 20%.

 

Um acordo mediado por Brasil e Turquia para troca de urânio chegou a ser assinado com o Irã em maio. O acordo, porém, foi rejeitado pelo Grupo de Viena - composto por Rússia, França, EUA e AEIA - e o Conselho de Segurança da ONU optou por impor uma quarta rodada de sanções ao país.

(Reportagem adicional de Ari Rabinovitch, em Jerusalém; e de Fredrik Dahl e Sylvia Westall, em Viena)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.