‘Israel só conhece o idioma da força’

Casado com uma brasileira, um dos 1.027 palestinos libertados por Israel diz que troca não ajudará a trazer a paz

Viviane Vaz, especial para O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2011 | 23h14

 DEIR BALUT (CISJORDÂNIA) - Depois de 26 anos preso, o geógrafo Tawfic Abdallah, casado com a brasileira Lamia Maruf, foi libertado na terça-feira, 18, junto com outros 446 presos palestinos. Em Ramallah, ele foi aplaudido pela multidão diante do presidente Mahmoud Abbas e abraçou amigos e parentes. “Estou muito feliz. A gente sempre tem esperança”, disse a prima, Jelile Abdallah. Tawfic foi condenado à prisão perpétua por participar do sequestro e assassinato do soldado David Manós, em 1984. Livre, ele ainda não sabe se poderá viver no Brasil com a mulher e a filha, mas tem uma certeza: continua não acreditando na negociação com Israel.

 

Como foram as primeiras horas de liberdade após 26 anos de prisão?

Estou contente, mas muito triste também, porque deixo meus amigos em prisões israelenses.

 

E o que o senhor pretende fazer agora?

Quero, talvez, ir ao Brasil. Não tenho certeza, mas minha mulher... o governo israelense a deportou há 14 anos, quando ela estava em uma prisão israelense. Quero ir, depois de um mês ou umas duas semanas, para a Jordânia. Depois disso, para o Brasil. Ou talvez Lamia venha para a Jordânia.

 

Sua filha Patricia virá a Deir Balut para vê-lo?

Sim, ela chegou hoje pela Jordânia.

 

Alguns analistas defendem que o acordo para trocar Gilad Shalit por 1.027 prisioneiros palestinos poderia ser um sinal de que uma negociação futura é possível. O sr. Concorda?

Não. Há 20 anos, havia negociação entre o governo israelense e a Organização para a Liberação da Palestina (OLP). O governo israelense não libertou nenhum prisioneiro palestino que matou israelenses. Mas, se matou palestinos, o governo liberta. Agora, sou membro do movimento Fatah, mas eu lutei contra os soldados israelenses. Fui libertado numa negociação de troca, que o governo não queria, porque lutei contra a ocupação. O Hamas sequestrou o soldado Shalit no seu tanque e, depois disso, houve muitas negociações entre os israelenses e o Hamas para trocá-lo por prisioneiros. Israel só conhece um idioma: o da força.

 

Qual sua opinião sobre a iniciativa do presidente palestino, Mahmoud Abbas, de ir à ONU e pedir o reconhecimento de um Estado?

Com negociação não acho que teremos um Estado palestino. É impossível. Abu Mazen (Mahmoud Abbas) acredita somente na negociação. Eles dizem que voltarão a negociar, mas o governo israelense se recusa a dar qualquer coisa a Abu Mazen. Porque o Hamas capturou um soldado deles, eles libertaram 1.027 prisioneiros de prisões israelenses. O que podemos entender disso?

 

Analistas palestinos afirmam que o Fatah trocou a estratégia de luta armada por resistência pacífica. O sr. Concorda?

Os governos israelenses nunca acreditaram na paz negociada. Todos, de (Yitzhak) Rabin a (Binyamin) Netanyahu. Até agora, temos assentamentos (judaicos), 400 mil colonos judeus nos territórios palestinos, desde (os Pactos de) Oslo até agora. O que podemos esperar das negociações?

 

O que o sr. achou da posição do Brasil e da presidente Dilma Rousseff na ONU de apoiar a criação de um Estado palestino?

Agradecemos ao governo brasileiro e ao povo brasileiro por apoiar o povo palestino.

 

O sr. foi acusado e preso por matar um soldado israelense. O sr. se arrepende?

(Pausa) Não sei.

 

E o sr. possui alguma religião, acredita em Deus?

Acredito, mais do que você possa imaginar.

 

Tudo o que sabemos sobre:
PalestinopresoentrevistaIsrael

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.