Israelenses sabem o que atacam, dizem palestinos

Moradores de Gaza acusam Israel de bombardear áreas civis e negam que Hamas use todos os lugares

Lourival Santanna, enviado especial, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2014 | 03h28

CIDADE DE GAZA - Os bombardeios de áreas nitidamente civis, como mercados e escolas da ONU, têm sido seguidos de declarações, por parte de porta-vozes israelenses, colocando em dúvida a autoria dos disparos. No mercado de Shejayeah, onde 17 pessoas morreram e 160 ficaram feridas na quarta-feira, Mahmoud Kassab, dono de uma barraca no local, não tem dúvidas sobre o que ocorreu.

Nas ruas desertas do mercado ontem à tarde, Kassab, que mora em Shejayeah, era o único caminhando, apressadamente. Ele disse ao Estado que estava no local quando sentiu uma "enorme explosão".

Olhou para o céu e viu um avião israelense, que disparou sete mísseis. "As pessoas saíram correndo, estavam fugindo do lugar e, mesmo assim, veio outro avião e disparou mais sete mísseis", afirmou Kassab, de 24 anos. "No total, foram 14 mísseis."

À pergunta sobre quem ele responsabiliza por esse ataque, uma vez que a ofensiva israelense foi desencadeada pela escalada de foguetes do Hamas, Kassab também não hesita: "Israel, porque não existe ninguém do Hamas aqui. Por que bombardear essa área? Aqui só existem civis."

Na Escola Fundamental de Daraj, uma das instalações da Agência da ONU de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA, na sigla em inglês), que abrigam 200 mil refugiados, homens e crianças querem relatar os bombardeios que presenciaram - e perguntar por que Israel está atacando civis.

As autoridades israelenses responsabilizam o Hamas por instalar suas bases e baterias de foguetes no meio da população civil. A ONU admitiu ter encontrado foguetes escondidos em seus prédios. De acordo com os israelenses, o grupo guarda foguetes nas casas de famílias, que aceitam em razão do medo e também por um pagamento em dinheiro.

Emboscada. Na quarta-feira, três soldados israelenses morreram na entrada de um túnel que ficava dentro de uma casa, segundo as autoridades de Israel. Eles pisaram em fios que estavam atados a explosivos, na forma de uma armadilha.

Ali Elewa, de 56 anos, conta que seu quarteirão, no bairro de Shaaf, próximo ao mercado, foi destruído há duas semanas. Ele veio para a escola com a mulher e 7 de seus 11 filhos. "Deixei os outros 4 em outra escola, porque, se bombardearem uma delas, resta parte da família para contar a história", disse, sorrindo amargamente.

Elewa afirma que trabalhou em fazendas israelenses durante 35 anos. Agora, cuida de seu pequeno terreno em Gaza, onde plantou, há 15 anos, um pé de damasco. "Este seria o primeiro ano em que eu colheria a fruta, mas tive de sair da minha casa sem prová-la."

Conhecida como "formigueiro humano" em razão de sua densidade populacional - 1,8 milhão de pessoas ocupando 360 quilômetros quadrados -, a Faixa de Gaza tem ruas e estradas vazias. A maioria dos moradores está em casa ou nas escolas e outras instalações da ONU. Apenas no mercado do centro há maior movimentação de pessoas que vêm se abastecer.

Sem água. Depois da destruição, há três dias, da usina a diesel de geração de eletricidade, o problema agora é a falta de água, distribuída por bombas elétricas. Perto da escola de Daraj, cerca de dez pessoas se acotovelavam para encher recipientes de plásticos com a água que jorrava de um tonel. Segundo comerciantes e moradores, alguém - não se sabe quem - tem enchido esse tonel todos os dias.

Apenas famílias que podem arcar com um gerador que custa entre US$ 300 e US$ 400 e mais US$ 3 de óleo diesel por hora de consumo têm energia elétrica por algumas horas em casa. A escuridão da noite na Faixa de Gaza intensifica o clarão dos foguetes e mísseis trocados metodicamente pelo Hamas e por Israel.

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