Itália diz que mortos na Líbia chegam a mil

As tentativas do líder líbio, Muammar Gaddafi, de esmagar uma revolta contra seu governo, no poder há quatro décadas, já deixaram até mil mortos e dividiram a Líbia, disse nesta quarta-feira o ministro do Exterior da Itália, Franco Frattini.

ALEXANDER DZIADOSZ, REUTERS

23 de fevereiro de 2011 | 13h10

O chanceler italiano declarou também que centenas de milhares de pessoas que buscam sair da Líbia poderão tentar cruzar o Mediterrâneo de barco. Ele pediu ajuda aos parceiros da União Europeia para lidar com a questão dos refugiados.

Na cidade de Benghazi, no leste do país e berço da revolta contra Gaddafi, pessoas soltavam bombinhas (fogos de artifício pequenos) e tocavam as buzinas de seu carro para festejar o fim dos dias de derramamento de sangue na cidade.

Com boa parte do leste do país sob controle de manifestantes, uma cadeia vazia ardia em chamas em Benghazi, e a emissora britânica Sky News mostrou imagens de mísseis antiaéreos no que afirmou ser uma base militar abandonada perto de Tobruk,

Enquanto países com fortes laços comerciais com o terceiro maior produtor de petróleo da África se esforçavam para retirar seus cidadãos da Líbia e moradores da capital evitavam sair de casa, por medo de homens armados pró-Gaddafi, a França tornou-se o primeiro país a lançar um chamado por sanções.

"Eu proponho a suspensão de relações econômicas, comerciais e financeiras com a Líbia até data indeterminada", disse o presidente Nicolas Sarkozy.

Mas, no sinal mais recente de divergências externas sobre como lidar com Gaddafi, o governo do Catar disse que não quer isolar a Líbia, onde vários altos funcionários do governo declararam apoio aos protestos que começaram há aproximadamente uma semana. Ao mesmo tempo, porém, o Catar retirou seu embaixador de Trípoli, segundo uma autoridade líbia.

Manifestantes tomaram conta da região leste do país, a região produtora de petróleo. O ministro do Interior, Abdel Fattah Younes al Abidi, e um assessor sênior do influente filho de Gaddafi, Saif, foram os últimos a mudar de lado.

"Renunciei de meu cargo na Fundação Gaddafi no domingo para expressar meu repúdio à violência", disse Youssef Sawani, diretor-executivo da fundação, em mensagem de texto enviada à Reuters.

Gaddafi deslocou tropas para o oeste da capital para tentar impedir que se espalhe a revolta que começou no leste. No leste, muitos soldados se retiraram do serviço ativo, abandonando uma base militar perto da cidade de Tobruk.

Boa parte do país está isolada, incluindo até um quarto de sua produção petrolífera, provocando o temor de que a crise possa atrapalhar a recuperação econômica mundial.

Gaddafi, no passado respeitado por muitos líbios a despeito de seu governo repressor, pediu uma manifestação maciça de apoio nesta quarta-feira, mas apenas cerca de 150 pessoas se reuniram na praça Verde, no centro de Trípoli, carregando a bandeira líbia e o retrato de Gaddafi.

A maioria das ruas estava quase deserta, num horário em que normalmente estariam cheias por causa do horário do rush. Alguns cafés pareciam ser os únicos estabelecimentos abertos, apesar dos apelos de retorno à normalidade enviados pelo governo aos assinantes das duas operadoras estatais de telefonia celular do país.

"Muitas pessoas em Trípoli estão com medo de sair de casa. Homens armados pró-Gaddafi percorrem as ruas e ameaçam pessoas que se reúnem em grupos", disse o tunisiano Marwan Mohammed quando atravessava a fronteira oeste entre Líbia e Tunísia.

Cerca de 1,5 milhão de estrangeiros trabalham na Líbia ou estavam viajando pelo país, e um terço da população de 7 milhões de habitantes é formada por imigrantes da África subsaariana.

Testemunhas descreveram cenas de caos quando pessoas tentavam sair do país. "É um êxodo bíblico", disse o chanceler italiano Franco Frattini, prevendo que várias centenas de milhares de pessoas vão buscar refúgio na Itália.

Frattini afirmou ter sido informado de que a região oriental de Cyrenaica, onde se localiza boa parte do petróleo da Líbia, não está mais sob controle de Gaddafi, depois de tentativas violentas de esmagar protestos nessa região e em outras partes do país.

Frattini declarou não ter informações sobre quantas pessoas foram mortas, mas acrescentou: "Acreditamos que as estimativas de cerca de mil mortos são dignas de crédito."

A organização Human Rights Watch estima em 233 o número de mortos, tendo 62 pessoas sido mortas em Trípoli nos últimos dois dias. Grupos oposicionistas estimam um número muito maior.

O Conselho de Segurança da ONU condenou o uso de violência e pediu que os responsáveis por ataques contra civis sejam criminalmente responsabilizados. O primeiro-ministro britânico David Cameron pediu uma resolução formal.

(Reportagem de Tarek Amara, Christian Lowe, Marie-Louise Gumuchian, Souhail Karam; Brian Love, Daren Butler; Dina Zayed, Sarah Mikhail e Tom Perry no Cairo e um correspondente da Reuters na Líbia; Henry Foy em Nova Délhi)

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