Morteza Nikoubazl/Reuters
Morteza Nikoubazl/Reuters

Itamaraty avalia risco de visita de Lula ao Irã

Governo acompanha crise interna para decidir sobre viagem do presidente, em maio

Denise Chrispim Marin, de O Estado de S. Paulo,

11 de fevereiro de 2010 | 04h59

A cerca de três meses da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Teerã, o Itamaraty está acompanhando a política interna iraniana e adiando o quanto pode a confirmação da visita. Nas próximas semanas, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, enfrentará problemas domésticos graves.

 

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Entre março e abril, seu governo iniciará um corte de US$ 100 bilhões anuais em subsídios que, atualmente, barateiam produtos e serviços básicos e favorecem, sobretudo, as camadas menos favorecidas da população. Mesmo que reduza a pressão inflacionária, a medida deverá aumentar as manifestações contra o governo de Ahmadinejad, que hoje mobiliza a classe média e os estudantes universitários.

 

A evolução do cenário interno vem sendo acompanhada cuidadosamente pelo governo brasileiro e deverá embasar - mais do que a pressão internacional sobre o Irã - a decisão final sobre a visita do presidente Lula ao país, programada, originalmente, para meados de maio.

O Itamaraty continua as negociações com o governo iraniano sobre a definição de uma data. Apesar da vontade do presidente brasileiro de retribuir a visita de Ahmadinejad ao País, em novembro, sua viagem ao Irã ainda não é certa.

 

No fim de janeiro, o governo iraniano oficializou a reforma nos subsídios para os próximos cinco anos. As medidas serão adotadas a partir de 21 de março, quando começa o ano fiscal do Irã, e atingirão os preços de produtos fundamentais, como trigo, arroz, óleo de cozinha, água, açúcar, leite, fertilizantes, energia elétrica e serviços postais.

 

Também estará nesse plano a elevação dos preços internos do petróleo e de seus derivados, em especial da gasolina e do diesel, que devem subir para cerca de 90% do valor médio internacional. Um litro de gasolina é hoje vendido a US$ 0,10 no país, enquanto que a média mundial é de US$ 0,40.

 

Instabilidade

 

"Há um elevado potencial de instabilidade interna. Não sabemos como o governo iraniano reagirá e nem se conseguirá controlar a situação", afirmou uma autoridade do governo brasileiro que acompanha a questão. "Muita água ainda deve rolar até a visita do presidente Lula."

 

O corte dessas subvenções responde a uma necessidade de redução de gastos previstos no orçamento de 2010 a 2015 e da urgência na eliminação das distorções nos preços domésticos de algumas mercadorias e serviços. Uma das consequências almejadas pelo governo iraniano é o controle da inflação, que oficialmente está em 13% ao ano, mas que pode ser bem mais elevada, de acordo com estimativas de economistas independentes.

 

Os subsídios foram adotados ou expandidos no início da Revolução Iraniana, em 1979, como eixo da nova política social dos aiatolás. De fato, favoreceu especialmente a classe média e a parcela mais pobre da população, assim como impulsionou pequenas indústrias e estabelecimentos comerciais.

 

Oposição

 

No dia 5, o jornal britânico Financial Times ressaltou que, mesmo com medidas de compensação diretas para a população mais pobre, a redução dos subsídios deve aprofundar ainda mais a impopularidade do governo Ahmadinejad e engrossar as fileiras do movimento opositor.

 

 

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