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Jornalista que atirou sapato em Bush é libertado

Sapatada converteu iraquiano em herói; Zaidi afirmou em entrevista coletiva que foi torturado na prisão

15 de setembro de 2009 | 06h18

Muntazer al-Zaidi , o jornalista iraquiano que lançou seus sapatos no ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush em dezembro de 2008, foi libertado nesta terça-feira, 15, após passar 9 meses na prisão. Segundo a BBC, Pouco após sua libertação, Zaidi disse que queria um pedido de desculpas e que revelaria o nome daqueles que o torturaram. Os parentes dizem que Zaidi, de 30 anos, ainda teme por sua vida.

 

Zaidi trabalhava para uma rede de televisão iraquiana quando, durante uma entrevista coletiva de Bush e do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, lançou seus sapatos no então presidente dos Estados Unidos enquanto lhe dizia: "Este é o seu beijo de despedida, cachorro. Isto é pelas viúvas e pelos órfãos do Iraque".

 

Visivelmente nervoso, o jornalista de 28 anos falou com a imprensa portando uma bandeira do Iraque utilizada antes da invasão dos EUA ao redor do pescoço. "Quando o primeiro-ministro (do Iraque, Nouri al-Maliki) disse que não iria dormir até que houvesse a garantia de que eu estava bem, estavam me torturando com cabos de eletricidade e barras de metal", disse.

 

O jornalista afirmou que recebeu maus-tratos "inclusive no pátio localizado atrás da sala da entrevista coletiva" de Bush e Maliki na qual jogou os sapatos e na qual, segundo denunciou, os profissionais de imprensa tinham instruções de não fazer nenhuma pergunta ao então presidente americano. "Talvez alguns tenham escutado meus gritos", acrescentou o jornalista, ao assegurar que revelará mais adiante as identidades dos funcionários e oficiais do Exército que o torturaram.

 

Zaidi também disse ter "certeza de que os serviços secretos americanos não vão deixar de me perseguir e tentar me matar de qualquer modo, seja fisicamente, socialmente ou profissionalmente". "Não sou herói, simplesmente tenho uma postura", disse o jornalista, que se tornou um símbolo da rejeição à invasão do Iraque pelos Estados Unidos.

 

Segundo um de seus irmãos, Zaidi, xiita de 28 anos, será levado a um país árabe, que não se divulgou, para receber tratamento médico pelas torturas recebidas na prisão. O jornalista foi sentenciado a três anos de prisão por insultar ao "presidente de um país estrangeiro", embora o tribunal de apelação reduzisse a sentença para só um ano.

 

O irmão de Zaidi, Dargham al-Zaidi, afirmou que ele teria sido espancado na cadeia por funcionários de alto escalão do governo do Iraque e teria sofrido fraturas nos braços e nas costelas, e hemorragia interna por causa da violência. As autoridades militares iraquianas desmentiram as acusações.

 

 

 

A Justiça considerou como atenuantes as circunstâncias nas quais aconteceu o incidente e o estado psicológico do jornalista quando cometeu o ato, que, segundo ele, se deveu à ocupação americana do Iraque.

 

Muitos de seus compatriotas lhe consideram um herói, da mesma forma que muitos cidadãos dos países árabes. Os 10 segundos que foram necessários para ele extravasar sua ira darão início a uma nova vida. Zaidi será festejado em todos os cantos do mundo árabe.

 

O ato de Zaidi inspirou jogos na internet e camisetas e levou alguns pais a oferecerem a ele as suas filhas em casamento. Arremessar sapatos é um grave insulto no mundo árabe. Na ocasião, Bush mostrou agilidade ao se esquivar do projétil. "Senti o sangue dos inocentes no meu pé no momento em que ele (Bush) sorria dizendo ter vindo se despedir do Iraque", disse Zaidi durante seu julgamento em março.

 

As imagens do sapato sendo arremessado correram o mundo e se tornaram um do símbolos do final do governo Bush. Uma pesquisa de opinião pública publicada na segunda-feira sugere que 62% dos iraquianos consideram Zaidi um "herói", 24% dos entrevistados disseram considerar o jornalista um criminoso e 10% dos ouvidos, as duas coisas.

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