Karzai chora ao pedir reconciliação do Afeganistão

Segundo presidente, povo afegão corre o risco de 'perder sua identidade' e se 'tornar estrangeiro'

Reuters

28 de setembro de 2010 | 09h00

Karzai se emociona ao discursar para afegãos.

 

CABUL - O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, chorou nesta terça-feira, 28, ao pedir que o povo "caia em si" e se apresse na busca pela paz, sob pena de que a próxima geração fuja para o exterior e perca sua identidade afegã.

Os afegãos precisam viver e trabalhar no país e pelo país, disse Karzai, ao identificar pela primeira vez alguns dos membros de um conselho de paz destinado a buscar uma solução pacífica para o conflito contra a milícia islâmica Taleban.

"Não quero que Mirwais, meu filho, seja um estrangeiro, não quero isso. Quero que Mirwais seja afegão", disse Karzai, que passou anos exilado no Paquistão durante a ocupação soviética, na década de 1980, e o regime Taleban, nos anos 90.

"Portanto, caiam em si... Vocês estão testemunhando o que está acontecendo no nosso solo, e só por meio dos nossos esforços esta pátria poderá ser nossa", acrescentou ele, sendo intensamente aplaudido durante um evento numa escola de Cabul, por ocasião do Dia Internacional da Alfabetização.

Este é o ano mais sangrento no Afeganistão desde a invasão americana de 2001. Apesar da presença de quase 150 mil soldados estrangeiros no país muitos têm a sensação de que só o diálogo - ao invés da força militar - poderá levar à paz.

Em junho, Karzai convocou uma "jirga" (assembleia tribal tradicional) para discutir a paz, mas o Taleban rejeitou as negociações, exigindo como condição para isso a retirada de todas as forças estrangeiras.

O conselho de paz criado pela "jirga" terá mais de 68 membros, inclusive dois ex-presidentes, e pelo menos dois ex-membros do Taleban, além de clérigos e mulheres. Seus membros foram definidos após deliberações envolvendo líderes tribais e outros dirigentes.

Karzai perguntou às mulheres na plateia se elas apoiam as negociações, já que algumas ativistas têm manifestado a preocupação de que um eventual acordo com o Taleban possa reverter conquistas femininas no campo da educação, trabalho e liberdade de ir e vir. Dezenas delas levantaram a mão em sinal de apoio.

O plano do governo, apoiado pelos líderes tribais na "jirga" de junho, envolve oferta de dinheiro e empregos para retirar militantes do campo de batalha, paralelamente à busca da reconciliação com os líderes do Taliban, os quais receberiam oferta de asilo em países islâmicos e teriam seus nomes retirados de uma lista negra da ONU.

Nações doadoras de ajuda prometem dezenas de milhões de dólares para serem distribuídos a militantes do Taleban que desertarem do movimento.

Os EUA pretendem iniciar uma retirada em julho de 2011, e Karzai espera que a partir de 2014 as forças afegãs substituam totalmente as forças estrangeiras no controle da segurança.

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