Karzai quer que Otan deixe aldeias; Taliban abandona negociação

O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, pediu na quinta-feira que as tropas da Otan deixem as aldeias afegãs e limitem sua presença aos principais quartéis, depois do assassinato de 16 civis por um sargento norte-americano.

ROB TAYLOR E JACK KIMBALL, REUTERS

15 de março de 2012 | 20h15

Quase simultaneamente, o Taliban afegão anunciou a decisão de suspender as ainda incipientes negociações de paz com os EUA, que eram vistas como uma forma de promover a estabilização do Afeganistão antes da retirada das forças norte-americanas, no final de 2014. O grupo islâmico alegou que os EUA demonstraram uma postura "instável, errática e vaga".

O governo dos EUA disse que continua comprometido com uma reconciliação política que envolva negociações com o Taliban, mas que qualquer progresso passa também por acordos entre os insurgentes e o governo afegão.

Em nota divulgada após reunião com o secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta, em Cabul, Karzai disse que "as forças internacionais de segurança precisam ser retiradas dos postos avançados em aldeias afegãs e voltar para os quartéis".

Mas isso atrapalharia o cronograma de desocupação previsto pelo governo norte-americano, pois inviabilizaria ações como prestar treinamento à polícia local e ajudar a aprimorar a administração das aldeias.

O sargento acusado pela chacina de domingo - que não teve seu nome revelado - é parte de uma unidade comum, mas servia junto a uma força especial, num tipo de guarnição semelhante a várias outras existentes no país.

O incidente azedou as relações entre Cabul e Washington, e Cabul pediu providências para que ele não se repita.

Os EUA minimizaram a proposta de Karzai para a desocupação das aldeias. "Acreditamos que essa declaração reflete o forte interesse do presidente Karzai em avançar o mais rapidamente possível para um Afeganistão totalmente independente e soberano", disse George Little, porta-voz do Pentágono, a jornalistas em Abu Dhabi, onde Panetta desembarcou procedente do Afeganistão.

Senadores republicanos contrários a qualquer antecipação na desocupação militar do Afeganistão disseram que a proposta de Karzai levaria ao fracasso do plano que prevê a passagem das atribuições de segurança para as forças afegãs nos próximos dois anos.

"Tentamos isso no Iraque, onde permanecemos nas bases, e o Iraque involuiu para o caos", disse a senadora Lindsey Graham. "Detrás de uma cerca não se pode combater efetivamente."

A chacina de domingo também contribuiu para a decisão do Taliban. "O Emirado Islâmico decidiu suspender todas as discussões com os norte-americanos realizadas no Catar de agora (quinta-feira) em diante, até que os norte-americanos esclareçam sua posição sobre as questões envolvidas e até que demonstrem disposição em cumprir suas promessas ao invés de perderem tempo", disse o grupo em nota, acrescentando que discussões semelhantes com o governo afegão seriam inúteis e nem chegaram a acontecer.

O grupo acrescentou que foi obrigado a suspender o processo porque Washington, diante de exigências como a libertação de prisioneiros do Taliban na base de Guantánamo, encravada em Cuba, respondeu com uma lista de condições que os insurgentes consideraram "não só inaceitáveis como também uma contradição a pontos decididos anteriormente".

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