Líbia declara cessar-fogo após ameaça de ataque do Ocidente

O governo de Muammar Gaddafi anunciou um cessar-fogo unilateral em sua ofensiva para reprimir a revolta na Líbia, enquanto aviões de combate do Ocidente se preparavam nesta sexta-feira para atacar as forças do líder líbio.

MARIA GOLOVNINA, REUTERS

18 de março de 2011 | 15h29

As tropas do governo, porém, bombardearam ainda nesta sexta a cidade de Misrata, no oeste do país, que estava sob controle dos rebeldes, matando ao menos 25 pessoas, incluindo crianças, disse um médico local à Reuters. Os moradores afirmaram que não havia sinais de cessar-fogo.

No leste do país, onde os rebeldes mantêm o controle, a declaração do governo foi repudiada, sendo considerada uma armadilha ou um sinal do desespero de Gaddafi.

"Temos de ter muita cautela. Ele agora começa a ficar com medo, mas no campo a ameaça não mudou", disse um porta-voz francês. A Grã-Bretanha, que assim como a França defende fortemente uma ação armada, disse que julgará Gaddafi pelas "ações e não por suas palavras".

Os Estados Unidos também mostraram ceticismo. O papel do país é crucial, apesar da insistência do governo de que não lidera uma campanha internacional. "Teremos de ver ações no local e isso ainda não está muito claro", disse a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton.

A Turquia, que se opõe a uma ação militar, disse que o cessar-fogo líbio deveria entrar em vigor imediatamente.

"Decidimos um cessar-fogo imediato e cessar imediatamente todas as operações militares", disse o ministro das Relações Exteriores líbio, Moussa Koussa, em Trípoli na sexta-feira, depois que o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução autorizando ação militar.

Ele pediu pelo diálogo com todas as partes. Gaddafi prometeu não mostrar "nem dó nem piedade" na quinta-feira e os rebeldes pediram por ajuda estrangeira antes que não houvesse mais tempo.

O anúncio do cessar-fogo provavelmente se deu por Gaddafi perceber que ataques aéreos poderiam danificar gravemente suas forças militares, disse John Drake, consultor sênior da AKE.

"O regime de Gaddafi pode estar disposto a negociar", disse ele à Reuters. "Com rumores de ataques contra comboios militares, ele pode estar preocupado sobre um ataque significativo contra seus militares."

BASES ITALIANAS

Autoridades afirmaram que um ou mais países árabes participariam da operação na Líbia. O Catar disse que participaria, mas não estava claro se isso significa auxílio militar. A Tunísia disse que não participaria de nenhuma forma.

"A Grã-Bretanha mobilizará (caças) Tornados e Typhoons, além de aeronaves para reabastecimento aéreo e vigilância", disse o primeiro-ministro David Cameron ao Parlamento.

"Os preparativos para mobilizar essas aeronaves já começaram e nas próximas horas eles irão para bases aéreas de onde podem iniciar a ação necessária."

A Itália anunciou que disponibilizaria sete bases militares, além de equipamentos e tropas. Nápoles será o centro de coordenação.

Dinamarca e Canadá afirmaram que planejam contribuir com caças. A França sediará reuniões no sábado para debater a ação com a Grã-Bretanha, a Liga Árabe e outros líderes.

O secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, disse após uma reunião com embaixadores da aliança militar que a Otan estava "finalizando seu planejamento a fim de se prontificar para tomar a ação apropriada... como parte do amplo esforço internacional."

Pessoas em Misrata disseram que a cidade do oeste do país estava sob bombardeio pesado pelas forças de Gaddafi na sexta-feira.

"Eles estão bombardeando tudo, casas, mesquitas e até ambulâncias", disse à Reuters um porta-voz dos rebeldes chamado Gemal, por telefone, desde o último grande reduto rebelde na parte ocidental do país.

Outro rebelde chamado Saadoun disse: "Achamos que eles querem entrar na cidade a qualquer custo antes de a comunidade internacional começar a implementar a resolução da ONU."

"Pedimos à comunidade internacional que faça algo antes que seja tarde demais. Eles precisam agir agora."

Um combatente chamado Mohammed afirmou que tanques avançavam pelo centro da cidade. "Todas as pessoas de Misrata tentam desesperadamente defender a cidade", afirmou ele.

A TV Al Arabiya também disse que a cidade de Zintan, sob controle rebelde e também no oeste do país, foi atacada por foguetes na sexta-feira. As notícias sobre os confrontos não podiam ser confirmadas de forma independente. As autoridades impedem que os jornalistas estrangeiros baseados em Trípoli reportem livremente.

CESSAR-FOGO DESPREZADO

No leste, em Tobruk, controlada pelos rebeldes, o chamado de cessar-fogo foi desprezado. Na quinta-feira, Gaddafi havia prometido não ter "nem dó nem piedade".

"Veja como as coisas mudam da noite para o dia", disse Ashraf Afgair. "Eles estão apenas tentando acalmar a opinião internacional. É uma tentativa desesperada de Gaddafi de se agarrar ao poder."

Idris Khamis afirmou: "Eles chegaram ao fim da linha. É por isso que aceitam a decisão da ONU. Senão, Gaddafi teria o mesmo destino de Hitler e Mussolini".

As tropas de Gaddafi, porém, não cumpriram a ameaça dele de arrasar a base rebelde de Benghazi durante a noite, depois que a veloz contraofensiva deles chegou a 100 quilômetros da cidade, no leste do país.

O Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução apoiando uma zona de exclusão aérea e "todas as medidas necessárias" para proteger os civis das forças de Gaddafi.

Os aeroportos militares da Líbia estão principalmente ao longo da costa do Mediterrâneo, assim como os principais centros urbanos. As tropas terrestres de Gaddafi avançam a partir do oeste pela principal rodovia costeira rumo a Benghazi, no leste.

Enquanto outros países e a Otan devam participar em ação militar, as autoridades norte-americanas esperam que os EUA façam o 'trabalho pesado' numa campanha que provavelmente incluirá ataques aéreos contra tanques e artilharia.

(Reportagem adicional de um repórter da Reuters em Benghazi; Michael Georgy em Trípoli; Mariam Karouny e Tarek Amara na Tunísia; Louis Charbonneau e Patrick Worsnip na ONU; e John Irish em Paris)

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