Líbios invadem sede de milícia islâmica em Benghazi

Manifestantes pró-governo invadiram na sexta-feira a sede da milícia islâmica Ansar al Sharia na cidade de Benghazi, na tentativa de expulsar combatentes do local, segundo testemunhas da Reuters.

PETER GRAFF E SULEIMAN AL-KHALIDI, Reuters

21 de setembro de 2012 | 21h33

A Ansar al Sharia é acusada de envolvimento no ataque da semana passada ao consulado dos EUA, num incidente que matou o embaixador norte-americano no país e três outros funcionários diplomáticos. O grupo negou envolvimento.

A ação contra o grupo na sexta-feira parece ter sido parte de uma ofensiva coordenada em QGs de milicianos por parte da polícia, de soldados e de ativistas, depois de grandes manifestações contra as milícias ao longo do dia.

"Líbia, Líbia" e "Chega de Al Qaeda" gritavam os ativistas, armados com espadas e até um cutelo de carne. "O sangue que derramamos pela liberdade não irá em vão!", diziam eles. Bandeiras da milícia foram arrancadas, e um carro foi queimado dentro do terreno.

Muitas milícias que participaram da guerra civil que derrubou o regime de Muammar Gaddafi, no ano passado, continuam ativas, sem entregar suas armas nem se incorporar às forças oficiais do governo.

"Depois do que aconteceu no consulado norte-americano, o povo de Benghazi já está farto de extremistas", disse o manifestante Hassan Ahmed. "Eles não prestaram obediência ao Exército. Por isso as pessoas invadiram e eles fugiram."

Não houve sinal de resistência da milícia no local, que já foi um quartel das forças de Gaddafi. "Parece que eles (milicianos) quiseram desarmar a situação, por isso fugiram", disse Ahmed, que comparou o quartel "à Bastilha". "É de onde Gaddafi controlava a Líbia, e aí a Ansar al Sharia o tomou. Esse é um ponto de inflexão para o povo de Benghazi."

Os manifestantes também ocuparam um quartel da milícia Brigada Abu Slim, além de uma segunda sede da Ansar al Sharia.

Antes, milhares de moradores de Benghazi saíram às ruas em apoio à democracia e contra as milícias islâmicas que Washington culpa pelo ataque ao consulado, ocorrido em meio a protestos contra um filme ofensivo ao profeta Maomé.

Centenas de partidários da Ansar al Sharia também fizeram uma manifestação própria.

O governo havia declarado a sexta-feira como "Dia do Resgate de Benghazi". "É óbvio que esse protesto é contra as milícias. Todas elas deveriam aderir ao Exército ou às forças de segurança como indivíduos, não como grupos", disse o estudante de Medicina Ahmed Sanallah, de 27 anos. "Sem isso não haverá prosperidade nem sucesso para a nova Líbia."

O embaixador Christopher Stevens, morto no ataque, era uma figura querida na Líbia pós-revolucionária, e muitos líbios, embora indignados com o filme anti-islâmico que circulou na internet, condenaram a violência contra o consultado.

"Exigimos justiça para Stevens", dizia um cartaz na manifestação, em inglês. "A Líbia perdeu um amigo", disse outro.

Mas outros manifestantes preferiram se desvincular da questão do atentado. "Saí hoje para defender Benghazi. A morte do embaixador é uma coisa completamente à parte", disse o engenheiro Amjad Mohammed Hassan, de 26 anos. "Não estou nem aí para a morte do embaixador, porque os norte-americanos ofenderam o profeta. Só estou aqui por Benghazi."

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