Líder interino líbio dá ultimato a forças pró-Gaddafi

O dirigente interino da Líbia deu um prazo de quatro dias nesta terça-feira às forças leais ao líder deposto, Muammar Gaddafi, para que entreguem o controle das cidades ainda sob seu domínio, do contrário terão de enfrentar uma ação militar.

SAMIA NAKHOUL E ALEXANDER DZIADOSZ, REUTERS

30 de agosto de 2011 | 13h46

Enquanto prossegue a caçada ao próprio Gaddafi, as novas autoridades líbias acusaram a vizinha Argélia de ato de agressão por ter recebido a mulher e três filhos dele, que se refugiaram no território argelino.

O Ministério de Relações Exteriores da Argélia informou que a mulher de Gaddafi, Safia, sua filha Aisha e seus filhos Hannibal e Mohammed entraram no país na manhã de segunda-feira, levando seus filhos.

Isso provocou uma disputa diplomática num momento em que o conselho interino da Líbia se empenha para consolidar sua autoridade e tomar o controle de áreas ainda em mãos de forças leais a Gaddafi, notavelmente a cidade costeira de Sirte, a terra natal dele.

"Até sábado, se não houver indicações pacíficas para a implementação disto, decidiremos esta questão militarmente. Não desejamos fazer isso, mas não podemos esperar mais", disse Mustafa Abdel Jalil, líder do conselho interino da Líbia, em entrevista à imprensa.

As forças anti-Gaddafi convergiram para Sirte partindo do oeste e do leste, mas interromperam seu avanço antes de lançar um ataque total, na esperança de obter a rendição negociada da cidade.

"A zero hora se aproxima rapidamente", declarou o porta-voz militar, Coronel Ahmed Bani, em entrevista à imprensa em Benghazi, no leste.

"Não estamos negociando com o regime (de Gaddafi). Estamos falando com os anciãos de várias tribos e afiliados", disse ele, acrescentando que os grupos leais a Gaddafi estão se sobrepondo ao desejo da maioria dos civis de "se unirem às áreas liberadas da Líbia livre".

O paradeiro de Gaddafi é desconhecido desde que seus inimigos tomaram seu quartel-general em Trípoli, em 23 de agosto, pondo fim a 42 anos de regime, depois de uma revolta de seis meses apoiada pela Otan e alguns Estados árabes.

GADDAFI "FOI PARA SABHA"

A TV britânica Sky News informou -- citando como fonte um jovem guarda-costas de Khamis, filho de Gaddafi -- que o líder deposto permaneceu em Trípoli até sexta-feira e depois partiu para a cidade de Sabha, situada numa região desértica do sul do país.

Segundo a emissora, o jovem de 17 anos, capturado pelas forças rebeldes, disse que Gaddafi se encontrou com Khamis, um temido comandante militar por volta de 1h30 de sexta-feira em uma área de Trípoli que estava sob pesado ataque dos insurgentes. Gaddafi tinha ido de carro e logo depois chegou Aisha, segundo ele.

Depois de uma rápida reunião, eles partiram em carros, afirmou o guarda-costas ao repórter da Sky, acrescentando que seu oficial imediato havia dito a ele: "Eles foram para Sabha".

Como Sirte, Sabha é um dos principais bastiões das forças pró-Gaddafi que ainda resistem ao avanço rebelde.

Um porta-voz da Otan disse que os relatos de negociações sobre Sirte são encorajadores, mas afirmou que a aliança atlântica está atacando os que se aproximam da cidade. A Otan vem mantendo há cinco meses uma campanha de bombardeio contra as forças de Gaddafi.

"Nossa principal área de atenção é um corredor... (que conduz) para a margem leste de Sirte", declarou o coronel Roland Lavoie.

Alguns rebeldes disseram que Khamis Gaddafi e o ex-chefe da Inteligência Abdullah al-Senussi foram mortos em um confronto no sábado. Isso não foi confirmado pela Otan.

Mais forças do Conselho Nacional de Transição (CNT) estão se dirigindo para Bani Walid, um reduto tribal de Gaddafi, situado 150 quilômetros a sudeste de Trípoli.

RELAÇÕES TENSAS COM A ARGÉLIA

Um porta-voz do CNT disse que os novos líderes vão procurar obter a extradição dos parentes de Gaddafi que estão na Argélia, o único dos países vizinhos à Líbia que não reconheceu o Conselho.

Cerca de 60 países reconheceram o CNT como autoridade legítima da Líbia. Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul estão entre os que até o momento não o fizeram.

A aceitação da mulher, filhos e netos de Gaddafi irritou os novos líderes líbios, que querem que o autocrata deposto e seu entorno enfrentem a Justiça pelos anos de regime repressivo.

O presidente do CNT, Abdel Jalil - que chegou a ser ministro da Justiça de Gaddafi - pediu que o governo da Argélia entregue todos os filhos de Gaddafi que estejam em sua lista de pessoas procuradas.

A Argélia se opôs às sanções contra Gaddafi e à criação de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia. O país tem um governo autoritário que está preocupado com as revoltas árabes batendo perto de suas fronteiras.

Em Trípoli, uma visita a um complexo de edificações à beira-mar usado pelos filhos de Gaddafi e membros da elite do regime revelou uma vida de privilégio e opulência com a qual muitos líbios nem sequer podem sonhar.

O chalé de Saadi Gaddafi estava repleto de roupas de estilistas, incluindo ternos não usados e cerca de 100 pares de sapatos. A casa de Aisha tinha 13 quartos e talheres em ouro.

Os combatentes anti-Gaddafi agora dormem nas camas dos ex-governantes, cujo quartel-general cercado de portões tem quadras de tênis, campos de futebol e restaurantes, além de magnífica vista do mar.

Muitos líbios vibram com a queda de Gaddafi, após a derrubada dos dirigentes da Tunísia e do Egito, mas estão assombrados com as evidências de matanças em massa em Trípoli no momento em que suas forças combatiam os rebeldes.

Uma semana depois da deposição de Gaddafi, os 2 milhões de habitantes da capital continuam sem água corrente e eletricidade. Bancos, farmácias e muitas lojas permanecem fechados.

Lixo e esgoto ainda se espalham pela cidade, apesar dos esforços de limpeza.

Um porta-voz do CNT disse que uma estação de bombeamento de água para Trípoli que fica na cidade de Sabha, controlada por forças pró-Gaddafi, foi danificada e ainda não está em seu controle, para os reparos.

Um relatório de uma entidade humanitária da União Europeia afirmou que forças pró-Gaddafi em Sirte cortaram dois terços do suprimento de água para a capital.

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