Líder sunita aliado dos EUA morreu por se opor à Al-Qaeda

Abu Risha tornou-se importante na estratégia do governo Bush de jogar sunitas contra a facção no Iraque

Hamza Hendawi, da Associated Press,

13 de setembro de 2007 | 17h01

Havia ultimamente uma constante peregrinação ao complexo fortificado onde vivia Abdul-Sattar Abu Risha, de moradores da região, líderes tribais e oficiais do Exército americano, destacando a rápida ascensão do jovem líder tribal a alicerce da estratégia americana de jogar tribos sunitas contra a Al-Qaeda no Iraque.   Veja Também Líder sunita que se reuniu com Bush é morto   Mas a posição de Abu Risha lhe rendeu rivais e inimigos. O grupo extremista Al-Qaeda no Iraque tentou, em diversas ocasiões, assassiná-lo. Ao mesmo tempo, muitos sunitas o viam como um oportunista, que se aproveitou do dinheiro americano para se impor.   Sua importância para a estratégia dos Estados Unidos ficou clara em 3 de setembro, quando Abu Risha encontrou-se com o presidente americano, George W. Bush. Numa visita-surpresa à província de Anbar, Bush posou para fotos ao lado do líder tribal, vestido na ocasião como um príncipe árabe, usando um imaculado robe dourado e com o bigode e o cavanhaque bem aparados.   Abu Risha, de 37 anos, foi morto dez dias depois do encontro com Bush em um ataque à bomba próximo de seu complexo fortificado em Ramadi, a capital da província iraquiana de Anbar. Dois guarda-costas do líder tribal também perderam a vida na explosão.   Há exatamente um ano, Abu Risha iniciou uma campanha com o objetivo de congregar outras tribos sunitas iraquianas para se contraporem à também sunita Al-Qaeda por causa das rigorosas leis islâmicas que o grupo extremista pretende implementar no Iraque.   A luta tinha um lado pessoal. Abu Risha perdeu dez familiares, entre eles quatro irmãos, em ações de represália por sua aproximação com os americanos.   A decisão recebeu na época pouca atenção da mídia internacional, mas depois destacou-se como uma das melhores coisas que aconteceram para os EUA no Iraque desde a invasão do país árabe, em março de 2003.   De bastião da resistência sunita à ocupação americana, Anbar é atualmente mencionada pela administração Bush como "um modelo para o restante do Iraque". A violência na região diminuiu consideravelmente depois que Abu Risha, outros líderes tribais e antigos insurgentes romperam com o Estado Islâmico do Iraque, uma união de grupos insurgentes sunitas que inclui a Al-Qaeda no Iraque, e passaram para as fileiras americanas.   Desesperado por algum caso de sucesso numa guerra cada vez mais impopular, o Exército dos EUA não titubeou em apoiar Abu Risha em sua causa. Temeroso do surgimento de um novo grupo armado sunita que pudesse eventualmente voltar-se contra ele, o governo iraquiano inicialmente relutou, mas acabou também dando seu apoio.   "Há um ano a província era considerada politicamente perdida", disse o general David Petraeus, comandante das forças americanas no Iraque, em depoimento ao Congresso americano na segunda-feira. "Hoje ela é um modelo do que acontece quando líderes e cidadãos locais decidem se opor à Al-Qaeda e rejeitar sua ideologia taleban."   Os combatentes americanos tentaram repetir a fórmula em outras áreas conflituosas do país, com resultados mistos. Por seu lado, Abu Risha ansiava por ser visto como um líder de envergadura nacional.   "Nós trabalhamos com todas as tribos do sul", disse ele numa recente entrevista à emissora pan-árabe de televisão Al-Jazira. "Trabalhei com todas as tribos iraquianas e todas elas estão seguindo minha liderança."   Abu Risha pertencia a um pequeno clã da tribo Dulaimi, a maior de Anbar, e foi um dos jovens líderes que ascenderam à proeminência quando anciões tribais fugiram ou foram mortos em meio à onda de violência na província.   O imenso complexo fortificado onde ele vivia em Ramadi possui diversas casas e fica de frente para a maior base militar americana na cidade.   Um correspondente da Associated Press que o visitou em março descreveu a rotina de Abu Risha como constantemente atribulada, com reuniões com líderes tribais de Anbar para discutir o combate à Al-Qaeda. As pessoas formavam fila para conversar com ele e as reuniões com oficiais do Exército dos EUA eram praticamente diárias.   Fumando um cigarro atrás do outro e carregando um revólver na cintura, Abu Risha entabulava conversas sem fim ao telefone.   "Nós lutamos com nossas próprias armas. Luto contra a Al-Qaeda com meus próprios recursos", disse Abu Risha esta semana ao Wall Street Journal. Ele dirigia a empreiteira e a empresa de importação e exportação de sua família, que possui escritórios na Jordânia e em Dubai.   Sempre que saía às ruas de Ramadi, 115 quilômetros a oeste de Bagdá, o jovem líder era cercado pela multidão e celebrado com frases de apoio.   "Graças a ele e a seus homens temos nossa vida de volta", disse Saad Ibrahim, gerente de uma loja de falafel no distrito de Malaab. Ali, segundo ele, a Al-Qaeda dominava até ser expulsa pelos combatentes do Conselho do Despertar de Anbar, liderado por Abu Risha.   Em Bagdá, o governo, dominado por xiitas, desconfiava abertamente do apoio americano a combatentes sunitas contra a Al-Qaeda por temer que eles poderiam um dia se voltar contra as forças de segurança do país.   Ainda assim, Log depois de Bush ter ido visitar Abu Risha, o governo de Bagdá realocou rapidamente US$ 70 milhões adicionais ao governo de Anbar, liberou US$ 50 milhões em compensações para vítimas da violência na província e prometeu criar 6.000 empregos na região.   Moradores disseram que o fornecimento de energia elétrica foi restabelecido na maior parte da província ao longo da última semana, com algumas área tendo energia durante 20 das 24 horas do dia, um luxo hoje no Iraque. A maior parte de Bagdá, a capital, tem energia durante apenas duas horas por dia.   Pouco é sabido sobre o passado de Abu Risha antes de ele ter lançado sua campanha contra a Al-Qaeda. Diversos clãs de Anbar beneficiavam-se de recursos liberados pelo deposto regime de Saddam Hussein.   O primogênito de Abu Risha chama-se Saddam. Ele tem 12 anos. Mas isso não pode ser considerado como evidência de seu passado. No Iraque, milhares de pais batizaram seus filhos com o nome do ex-ditador ao longo dos 23 anos de regime.   Além da desconfiança de Bagdá, Abu Risha lidava com rivais entre os líderes tribais de Anbar, como Ali Hatem Suleiman, um líder do clã Dulaimi que queixava-se da cooperação do primeiro com os EUA.   "Os clãs que cooperaram com os britânicos há quase um século ainda vivem na vergonha", disse Suleiman à AP na quarta-feira, referindo-se à época na qual o Iraque foi um protetorado britânico. "Apenas um mercenário se reuniria com Bush, que também não tinha nada que vir fazer em Anbar."

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