Líder supremo diz que Irã não cederá às pressões por eleição

Aiatolá Ali Khamenei reafirma vitória de Ahmadinejad e fecha portas para solução negociada com opositores

24 Junho 2009 | 07h37

O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, afirmou nesta quarta-feira, 24, que o governo do país não vai ceder às pressões provocadas pelas manifestações sobre as eleições presidenciais, fechando efetivamente as portas para uma solução negociada. Khamenei afirmou durante uma reunião com legisladores que "nos últimos incidentes ligados à eleição, eu tenho insistido na aplicação da lei, e assim continuarei. Isto significa que ninguém ficará acima da lei", declarou ele. "Nem o sistema nem o povo serão dobrados pela força", assegurou. Pela linguagem empregada pelo líder supremo iraniano, as declarações referem-se exclusivamente à pressão interna.

 

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Desde a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad em 12 de junho, o Irã é palco de uma onda de protestos sem precedentes desde a revolução de 1979, que deixou pelo menos 17 mortos e centenas de feridos. O reformista opositor Mir Hussein Mousavi assegura que a vitória do rival foi resultado de fraude e pediu pela anulação do pleito. Na última sexta-feira, Khamenei disse durante um sermão transmitido em rede nacional que o presidente Ahmadinejad foi o vencedor legítimo do pleito, sendo reeleito para um novo mandato de quatro anos. Ele pediu aos simpatizantes da oposição que parassem com os protestos e acusou os Estados Unidos, o Reino Unido e outras potências estrangeiras de instigarem as manifestações.

 

Forças de segurança têm imposto duras restrições em Teerã para evitar mais manifestações contra as eleições. A mulher de Mousavi, Zahra Rahnavard, pediu a libertação imediata das pessoas presas desde a eleição e criticou a presença de forças armadas nas ruas. "É meu dever continuar a realizar protestos legais para preservar os direitos iranianos", disse Rahnavard, que fez campanha ativa pelo marido antes do pleito.

 

O candidato conservador Mohsen Rezaei decidiu retirar as queixas que tinha apresentado ao Conselho de Guardiães, pelas supostas irregularidades nas eleições presidenciais iranianas. Em carta enviada ao presidente do Conselho, Ahmad Jannati, o conservador se queixa da "falta de tempo" para seguir com o processo. "A situação política, social e de segurança entraram em uma fase delicada e sensível, que é muito mais importante que a própria eleição", afirmou Rezaei, que obteve somente 1,73% dos votos. A desistência foi anunciada poucas horas depois de Khamenei conceder a prorrogação de cinco dias no prazo dado aos Guardiães da Revolução para que estudem as queixas dos três candidatos derrotados.

 

Na segunda-feira, o Conselho dos Guardiães admitiu indícios de irregularidades em cerca de 3 milhões de votos. O órgão afirmou que em 50 cidades houve mais votos do que eleitores, mas justificou sua decisão de manter o resultado oficial por não encontrar "nenhuma grande fraude ou violação" que justifique a anulação. O conselho, órgão que oficializa os resultados das eleições, afirmou ontem estar preparado para recontar uma amostra aleatória de 10% dos votos. De acordo com números oficiais, Ahmadinejad venceu a eleição com 63% dos votos. Mousavi obteve 34%.

 

Dinheiro da CIA

 

Os "agitadores" que protestaram contra a reeleição de Ahmadinejad teriam sido financiados pela Inteligência dos EUA (CIA) e por opositores iranianos exilados, segundo afirmou nesta quarta o ministro do Interior, Sadegh Masuli, citado pela AFP.

 

Na véspera, Barack Obama endureceu o discurso contra o Irã ao afirmar que o mundo está "chocado e indignado" com as agressões contra manifestantes. O presidente americano disse também que muitos iranianos consideram "ilegítima" a eleição.

 

A retórica de Obama vem se tornando mais inflamada nos últimos dez dias, na medida em que as mortes se acumulam em Teerã. Logo após a eleição, Obama limitou-se a dizer que estava "animado" com as demonstrações democráticas no país. Poucos dias depois, disse-se "preocupado" com as agressões a manifestantes. Ao justificar a retórica mais branda, Obama disse que não queria ver os EUA serem usados como "instrumento" para o Irã justificar suas ações. Segundo ele, as insinuações de que os EUA instigaram as manifestações são "patentemente falsas e absurdas".

Apesar de condenar a repressão do governo iraniano aos manifestantes, Obama evitou dizer diretamente que as eleições foram fraudadas. "Uma porcentagem considerável da população iraniana considera essa eleição ilegítima; há questões significativas sobre a legitimidade da eleição", ele afirmou. O endurecimento da retórica complica o plano de Obama de abrir um canal diplomático com o Irã para negociar a suspensão do programa nuclear do país. O governo iraniano já acusa EUA e Reino Unido de tentarem interferir no processo eleitoral.

(Com Patrícia Campos Mello, de O Estado de S. Paulo)

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