Líderes taleban poderão obter exílio, segundo plano de paz de governo afegão

Karzai discute proposta que também oferece emprego e reinserção social para ex-militantes.

estadão.com.br

06 Maio 2010 | 11h53

CABUL - Líderes de taleban no Afeganistão poderão ter exílio no exterior oferecido se concordarem em para de lutar contra o governo de Hamid Karzai, propõe o já a muito esperado plano de paz do governo afegão.

 

As propostas, vistas pelo jornal britânico The Guardian, também incluem aulas de "desradicalização" para insurgentes e milhares de novos empregos manuais criados para aqueles que renunciarem à violência.

 

O Programa Afegão de Paz e Reintegração, muito atrasado em seu cronograma original, voltou aos holofotes ao mesmo tempo em que Karzai se prepara para ir para Washington para se encontrar com Barack Obama, onde o projeto deverá ser o uns do principais itens de sua agenda.

 

O plano será apresentado ainda neste mês em uma reunião de diversas representações de líderes tribais de todo o Afeganistão, chamada Jirga Nacional Consultiva para a Paz. Uma vez acordado, o governo poderá começar a gastar cerca de US$ 160 milhões prometidos pela comunidade internacional para afastar os militantes do conflito. O documento se refere aos militantes como "irmãos bravos", refletindo a crença que uma parte substancial dos insurgentes não está motivada por fortes crenças religiosas.

 

Pouco é falado sobre os líderes taleban que controlam a guerra contra o governo de Karzai. Entretanto, afirma que líderes insurgentes poderiam obter um "potencial exílio em um terceiro país".

 

A Arábia Saudita foi usada no passada para tais propósitos, e há grande especulação de que o exílio poderia ser ofecido para Gulbuddin Hekmatyar, o líder do grupo armado Hizb-e-Islami, que em março mandou uma delegação de paz para Cabul para negociar com Karzai.

 

É provável que as potências ocidentais fiquem satisfeitas com o nível de detalhes do o novo Alto Conselho de Paz, que substituirá um órgão predecessor notoriamente caótico, acusado de reintegrar insurgentes que subsequentemente pegaram em armas novamente.

 

Entretanto, diplomatas estão preocupados que falte ao governo a capacidade de implementar um programa que suporte atividades complexas em cerca de 4.000 vilarejos afetados pela insurgência. Um diplomata disse: "Para a comunidade internacional, dinheiro não é um problema, eles pagarão o que for preciso."

 

O Alto Conselho e seu corpo executivo cudarão de militantes que desejam viver pacificamente. Eles serão inicialmente colocados em "centros de desmobilização" por um período de 90 dias onde suas necessidades serão avaliadas e sua segurança pessoal preservada.

 

Se eles concordarem em botar as armas de lado e cortar laços com a Al-Qaeda, eles obterão anistia contra acusações de qualquer tipo de crimes que possam haver cometido. Eles também receberão um "cartão biométrico". Então, será oferecido um "menu" de opções designadas para mantê-los pacificamente ocupados, incluindo treinamento vocacional em ocupações como tecelagem de tapetes e costura.

 

Haverá também a opção de passar por um treinamento de "desradicalização", do mesmo tipo empregado na Arábia Saudita. Entretanto, o documento reconhece a complexidade de tais programas, a falta de "experiências adequadas" no Afeganistão e a provável necessidade de mandar pessoas "altamente radicalizadas" para treinamento em outros países.

 

Outras grandes instituições também serão criadas para administrar o enorme esquema de criação de empregos. Uma Corporação de Engenharia e Construção irá focar em trabalhos intensivos, como a construção do sistema nacional de autoestradas do Afeganistão e outros projetos de larga-escala de infraestrutura. Também visará o rápido envio de equipes de ex-militantes taleban para responder a emergências como enchentes e deslizamentos. O ponto mais polêmico é o que propõe a opção para antigos insurgentes se juntarem ao exército ou às forças policiais afegãs.

 

Embaixadas ocidentais e a Otan estiveram impacientes por meses para que o governo produzisse uma estratégia de reintegração, que é uma importante parte do plano contra-insurgência desejado por Stanley McChrystal, o comandante americano das forças da Otan no Afeganistão.

 

Por outro lado, tem sido amplamente divulgado que Karzai está frustado com a oposição dos EUA à negociações de paz com os líderes insurgentes.

 

Entretanto, ambas as autoridades dos EUA e do Afeganistão dizem que há apenas desacordo quanto ao cronograma das negociações e, para a frustração do Reino Unido que quer ver um ajustamento político de alto-nível com o taleban, ambos os lados estão determinados de que não deverá haver um compromisso significativo.

 

Na semana passada, Ahmed Wali Karzai, o altamente influente meio-irmão do presidente afegão, disse ao Guardian que, ao mesmo que os insurgentes possam se render e retornar à paz, o governo afegão nunca iria dividir o poder com o taleban ou ceder a demandas para que a constituição do país fosse mudada em troca da paz.

Falando de sua residência em Kandahar, ele pergunta: "Dar para eles Uruzgan, Kandahar e Helmand? Mudar a constituição? De maneira alguma, eles são uma força derrotada, eles estão correndo, eles estão se escondendo, eles estão derrotados".

 

Suas declarações ecoaram as de um assessor presidencial que disse que Karzai não possui nenhum interesse em um grande acordo com o taleban como um todo, mas está interessado em conversar com indivíduos afim de "desbastar e enfraquecer a insurgência".

 

Acredita-se que a oferta de retorno para a casa de seus santuários no Paquistão e viver sem o medo de serem mortos pelas froças da Otan seja o suficiente para enconrajar as pessoas a desistirem da luta. Entretanto o analista de Harvard Matt Waldman disse que o taleban apenas ficaria feliz com uma mudança significativa no atual arranjo político no Afeganistão.

 

"Das minhas discussões com os comandantes do taleban, ficou claro que eles foram guiados para a luta por políticas predatórias, pelo abuso de poder e pela percepção de agressão militar. Até que essas causas sejam endereçadas, eles continuarão a lutar".

 

O plano de paz

 

O plano de paz proposto pelo governo afegão se baseia em seis pontos principais.

 

Soldados taleban serão encorajados por governos provinciais e distritais a reintegrar-se na sociedade. Em um período inicial de 90 dias de reflexão será decidido como eles podem ser ajudados.

 

Eles prometerão não mais lutar contra o governo, e repudiar seus votos antes dados a Al-Qaeda. As autoridades irão registrar seus perfis biométricos, incluindo digitais e escaneamento de íris.

 

Para ajudar os ex-militantes a se sustentarem, o governo oferecerá treinamento vocacional em áreas como costura e concerto elétrico.

 

Milhares de trabalhos manuais na construção e agricultura serão criados para rebeldes reintegrados na sociedade. Outros poderão se juntar às froças policiais locais ou ao exército.

 

O programa será iniciamente impolantado nas províncias de Kandahar, Helmand, Herat, Baghdis, Nangarhar, Kunduz, and Baghlan. Afetará 220 distritos e cerca de 4.000 vilarejos.

 

Líderes insurgentes que se conciliarem com o governo pode ser tirados da lista negra da ONU de terroristas e possivelmente terão a oferta de um "exílio em um terceiro país".

Mais conteúdo sobre:
Afesganistão Taleban plano de paz Otan Karzai

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.